Exmo. Sr. Avelino Collet, Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras;
 
Autoridades presentes;
 
Queridas confreiras e queridos confrades;
 
Senhoras e Senhores:
 
 
Em primeiro lugar, e se me permitem, gostaria de lembrar um fato pessoal. 
 
Eu tinha chegado a Porto Alegre na metade da década de oitenta para estudar em uma boa Universidade. Minha intenção era estudar literatura. Fiquei sabendo que para aceder à Faculdade de Letras deveria fazer um terrível exame cujo nome era Concurso Vestibular. Para ingressar no Instituto de Letras era imprescindível saber matemática, física, química, e biologia, além de geografia e história do Brasil. Mas isso não seria um grande problema. O que sim ia ser difícil era dominar a língua portuguesa, pois deveria enfrentar uma temível prova de 20 questões e uma redação!  Além disso, a prova de literatura não era exatamente o que eu entendia por literatura, era com questões sobre autores regionais e alguns autores nacionais e suas obras - e eu apenas tinha ouvido falar de um ou de dois. A situação não era boa. Nada de Shakespeare, Cervantes, Tolstói, Tchekhov, Dante.  Nada de Dostoievski ou mesmo Ernesto Sábato, Gabriel García Márquez ou Mario Vargas Llosa. Nomes lamentavelmente desconhecidos para mim habitavam a famigerada prova de literatura: Caio Fernando Abreu, Clarice Lispector, Érico Verissimo... A empreitada ia ser muito difícil. Mas contra todo prognóstico, consegui superá-la. Como? Tive dois timoneiros que me levaram certeiros rumo a águas mansas: o professor Cláudio Moreno, na língua portuguesa, nosso homenageado de hoje, e o professor Sérgius Gonzaga, na literatura brasileira. Quando eu disse, no primeiro dia de um curso intensivo pré-vestibular, que queria passar na UFRGS e no curso de Letras, eles devem ter ficado atônitos. Eu não conseguia formar uma frase com algum sentido em língua portuguesa. Ditados de palavras, autores, obras selecionadas, macetes linguísticos e, sobretudo, um profundo conhecimento da matéria que lecionavam, esses dois professores me abriram as portas da Universidade. E já na "Letras", as aulas de português do professor Moreno eram das melhores. Fui seu aluno por um bom tempo e ele fez o que pode. Certamente minha formação seria diferente se não fosse por sua forma clara e prática de ensinar, sem obscurantismos ou falsos brilhantismos. E o desfecho foi positivo, porque me tornei seu colega na Universidade. 
 
Feito este comentário inicial, pede o rito desta Instituição que o novo acadêmico seja devidamente apresentado com um breve histórico de sua vida e produção intelectual. Sem pretender fazer a enumeração completa nem listar todas as atividades em que participou, não porque isso não seja importante neste momento, mas porque nós todos queremos ouvir o professor, vou me ater ao que considero mais relevante. 
 
Cláudio Primo Alves Moreno 
 
Nosso novo confrade nasceu em Rio Grande, em 31 de agosto de 1944. Estudou toda a sua vida, do jardim de infância à Universidade, em escolas públicas. No final dos anos 60 concluiu o curso de Letras da UFRGS e no início dos anos 70 era tido como um jovem que muito prometia: dominava a língua inglesa e a francesa, era formado em Grego Clássico e Língua Portuguesa, e também dominava a Teoria da Literatura. Muito elogiado intelectualmente, fez concurso em 1972 para ingressar na UFRGS, na vaga de professor de Literatura Portuguesa. Porém, foi para o setor de Língua Portuguesa, ocupando o cargo de professor por muitos anos. Alternou  as aulas da Universidade com o Curso pré-vestibular Unificado e organizou a LET 180, uma disciplina obrigatória de Português para todos os ingressantes na UFRGS, chamada de Redação Técnica, que procurava ensinar aos alunos a escrita de relatórios científicos. Desta época é a parceria com Paulo Coimbra Guedes, e resultou um excelente manual de redação para colégios, chamado Curso básico de redação, editado pela Ática e que circula até hoje. 
 
O professor Moreno foi um dos primeiros da sua geração a concluir o mestrado na UFRGS, em 1977, com a dissertação intitulada "O diminutivo em -inho e -zinho e a delimitação do vocábulo nominal", e o doutorado na PUCRS, em 1997, com a tese "Morfologia Nominal do português: um estudo de fonologia lexical". 
 
Também lecionou na PUCRS onde frequentou, por um tempo, o curso de Direito. Já formado, e ao longo dos anos, lecionou (ou coordenou) cursos de Língua Portuguesa nos colégios Anchieta, Israelita-Brasileiro, João XXIII e Leonardo da Vinci. 
 
Tendo recebido a incumbência de projetar uma escola de ensino regular para o Grupo Unificado, lançou as bases do Colégio Leonardo da Vinci, de Porto Alegre, privilegiando a leitura crítica e o desenvolvimento de  um estilo pessoal de escrita. Hoje, ele é professor das Teleaulas de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro. 
 
Mas não é uma característica do professor Moreno ficar apenas dentro do ambiente de ensino. Bem ao contrário. É membro da famosa Mesa das Quintas do restaurante Copacabana e, desde o ano 2000 até faz pouco tempo, divertiu e instruiu aqueles que frequentavam o Sarau Elétrico do Bar Ocidente com magníficos relatos de Mitologia Grega adaptados, e com hilariantes diálogos com Kátia Suman e Luis Augusto Fischer. Moreno aproveitou sua cultura clássica para recontar e revisitar uma quantidade imensa de mitos e narrativas. 
 
Nos últimos anos, nos trouxe uma explosão de escrita de grande qualidade, o que era esperado, graças ao seu talento e qualidade de formação desde jovem. 
 
Da coluna sobre etimologia na revista Mundo Estranho da editora Abril, da sessão de questões de língua portuguesa no jornal Zero Hora e da coluna de Mitologia Clássica no mesmo jornal, resultaram várias obras, algumas de língua portuguesa, outras de crônicas. E deve-se destacar o belo livro que é Troia, recontagem em linguagem simples e direta da famosa guerra, e também o recente Noites gregas. 
 
Sabemos, de seguras fontes, que prepara novas e surpreendentes produções, mas isso ele se encarregará de dizer a seu devido tempo. Sem deixar de citar o site Sua língua, de consulta obrigatória para as dúvidas em língua portuguesa, posso afirmar que Moreno também é profundo conhecedor da língua espanhola, e sempre que viajo ao Uruguai, me pede para não esquecer de trazer novidades editoriais. 
 
Por fim, não posso deixar de mencionar que o professor foi um dos fundadores do Veludo, em 1962, uma prática futebolística que acontecia aos sábados à tarde na praia do mesmo nome, em Belém Novo, e que se prolongou, para alguns dos militantes, até o alvorecer deste século. Dizem que ele jogava bem. 
 
O professor Cláudio Moreno não necessita fazer parte da Academia Rio-Grandense de Letras, mas a Academia necessita de um membro que esteja a sua altura, à altura de sua dimensão histórica e social. E mais, a Academia Rio-Grandense de Letras merece ter entre seus membros o professor Moreno. Portanto, seja bem vindo caro amigo e agora, caro confrade!
 
Muito obrigado!