Exmo. Sr. Avelino Collet, Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras;
 
Autoridades presentes;
 
Queridas Confreiras e queridos confrades;
 
Senhoras e Senhores: 
 
 
Em seu livro "Octogesima adveniens - Chegando aos oitenta", o professor Luiz Osvaldo Leite diz que é um homem de fácil relacionamento e que tem bons e numerosos amigos (a ilustre presença de hoje confirma esta afirmação). Diz também, que faz parte de um grupo muito especial e singular, o "Grupo do Copacabana". É uma confraria formada por professores, intelectuais, artistas e políticos que se reúne todas as quintas feiras ao meio-dia. Na mesa do restaurante Copacabana já sentaram pessoas de diferentes ideologias e crenças e o grupo começou por iniciativa do professor Joaquim Felizardo. Nesses encontros sistemáticos de amigos, onde se discutem assuntos "sérios e hilariantes", nas suas palavras, eu vim conhecer o professor Leite, que é tido como o membro mais importante, e é o único que tem cadeira reservada. Contudo, não escapa das inúmeras brincadeiras que só os que convivem há tantos anos com ele e sabem de sua generosidade e bom humor, podem fazer. Fui convidado para participar desses encontros, mas uma certa modéstia, um certo constrangimento (quem sabe o mesmo que sinto agora saudando o mestre) me impedia de continuar a frequentá-los. O incentivo e a insistência para comparecer foi do professor Leite com sua famosa frase: "sentimos tua falta!" - mas é claro que eu sentia muito mais a falta deles e, aos poucos, consegui me tornar um comensal habitual. Foi nesses encontros que entendi o imenso valor intelectual, mas principalmente fraternal, deste brilhante novo membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Como destacar fragmentos importantes de uma imensa e brilhante trajetória como a do professor Luis Osvaldo Leite? São tantas e tão variadas as atividades, os prêmios e os títulos, que certamente pecaremos por apresentar uma enumeração incompleta. Mas devemos tentar fazê-lo nesta apresentação. 
 
O recipendário nasceu em Porto Alegre, em 1932. Conta, também no seu livro, que morou no bairro Cidade Baixa, e de pequeno, frequentou o colégio Paula Soares. Foi justamente a esse colégio que foram Vicente Celestino e Gilda de Abreu, e encantados com essa criança que era o professor Leite, o pegaram no colo e "o encheram de beijos". Ele era um aluno destacado e falava em nome dos colegas, representando o Grupo Escolar. Em solenidade de recepção ao presidente Getúlio Vargas, agora no Instituto de Educação General Flores da Cunha, entregou uma placa ao presidente e lhe dirigiu algumas palavras. Mais colo e beijos, desta vez, do Getúlio Vargas. Sem dúvida, era uma criança muito especial. 
 
Na adolescência estudou no colégio Anchieta e teve importantes professores como o padre Milton Valente, Heinrich Bunse e Jorge Paleikat, podendo aprender latim e grego com os melhores. Chegou, também, a ter uma educação musical, iniciando-se no piano, incentivado pelo colégio que favorecia a educação artística. Dessa época é a curiosa investigação que realizou tentando descobrir o túnel que ligava seu colégio de padres, o Anchieta, ao colégio de freiras, o Sevignè. O túnel, que nunca existiu, (vou citar) "serviria para o deslocamento oculto dos religiosos, de um lado para outro, com objetivos libidinosos", afirma em Octogesima Adveniens. 
 
Concluído o curso colegial, o professor Leite não foi à Faculdade, mas escolheu o Seminário o que, para alguns (inclusive seus pais), foi um choque. Luiz era um alegre e namorador jovem que curtia o carnaval. Porém, entrou no Seminário com relativa consciência, afastando "o buliço do mundo profano" e, nas suas palavras, não se arrependeu. Foi em Pareci Novo onde fez sua formação Jesuíta. Estudou Letras. Muito grego, muito latim e muita literatura e retórica. 
 
Posteriormente, foi aluno de Filosofia da primeira turma de Estudos Oficializados (e não só seminarísticos) da Faculdade Cristo Rei de São Leopoldo, RS, a atual UNISINOS. Após concluir esse curso, licenciou-se em Filosofia na UFRGS e trabalhou no colégio Anchieta, cumprindo o chamado período de magistério de três anos. Além de professor, foi orientador educacional, espiritual e religioso. No ensino superior, foi professor na UFRGS, marcando presença na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Faculdade de Direito, na antiga Faculdade de Filosofia, na Faculdade de Odontologia, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e no Instituto de Psicologia. 
 
O professor Leite foi ordenado sacerdote em 1962 e durante muito anos exerceu suas funções rezando missas, ouvindo confissões, fazendo batizados, preparando crianças para a primeira comunhão, administrando a unção dos enfermos, presidindo casamentos e pregando missão popular. Além de dar aulas no Anchieta e de dirigir as Casas da Juventude da Vila Olivia e do Morro do Sabiá, assumiu um compromisso com a igreja da Piedade, entre 1967 e 1969, celebrando missas, aos domingos, nessa paróquia. Conta no seu livro que o pároco da Piedade, Manoel Valiente, costumava levar alguns sacerdotes para os ofícios. Passou por lá monsenhor Marcelo Carvalheira, quem sugeriu que fosse recebido um frade dominicano: Frei Beto. Embora desligado de São Paulo, o frei ajudava pessoas perseguidas pelo regime militar a sair do país e, algumas vezes, as levava até a igreja da Piedade buscando hospedagem. Certo domingo, quando o professor Leite foi oficiar suas missas, lá estava o DOPS. Eram tempos difíceis: o padre Valiente, monsenhor Carvalheira e frei Beto foram presos. Mas não foram as prisões e arbitrariedades que forçaram o professor Leite a mudar suas convicções; nessa época, por não se adaptar a determinadas exigências, tinha decidido deixar a vida religiosa e encaminhou seu processo de dispensa a Roma. Contudo, como ele próprio afirma, nunca perdeu a fé e sabemos que até hoje é católico praticante. Casou-se com dona Luiza, também religiosa - franciscana bernardina. Ela era a diretora do curso primário do Anchieta, e ele trabalhava no Colegial: "éramos duas pessoas se questionando", diz em suas Memórias. 
 
Após deixar o sacerdócio sua principal atividade foi a de professor. À convite, trabalhou na SMEC (Secretaria Municipal de Cultura), coordenando o Núcleo Setorial de Planejamento da Secretaria, depois foi Diretor da Divisão de Cultura (hoje, Secretário Municipal de Cultura) e dirigiu o projeto e planejamento do que hoje é o Teatro Renascença, o Auditório Álvaro Moreyra, o Atelier Livre, a Biblioteca Pública Municipal e o Grande Saguão de Exposições. Dirigiu a Divisão de Cultura de 1975 a 1979. Na sua gestão foram criados o Conselho Municipal do Patrimônio Artístico Histórico e Cultural, o Fundo Municipal do Patrimônio Artístico Histórico e Cultural, o Museu de Porto Alegre e o Arquivo Histórico. Também na sua gestão ressurgiu a Banda Municipal. Em 1979 foi convidado para assumir a presidência da FEBEM (Fundação Estadual de Bem-estar do Menor), ocupando o cargo por quatro anos. Presidente da OSPA (Orquestra Sinfônica de Porto Alegre) em 1997, sempre esteve ligado a essa instituição, sendo atualmente o Presidente da Fundação Pablo Komlós, lutando incansavelmente na construção da Nova Sala Sinfônica da orquestra que, para sua satisfação, já está sendo erguida. 
 
E a uma vida tão rica dedicada ao bem e à cultura, não poderiam faltar homenagens e reconhecimentos que, certamente, ele não procurou. Homenagens dos alunos, louvor do governador do Estado, Diploma de Solidariedade concedido pela Associação Brasileira de Juízes e Curadores (1982), Voto de Louvor do Secretário do Trabalho e Ação Social do RS (1983), Voto de Congratulações da Câmara Municipal de Porto Alegre (1987), Medalha Cidade de Porto Alegre (1994), Troféu Destaque UNITV (2010), Prêmio José Felizardo Memória Cultural (2011), entre tantos outros. 
 
Não posso deixar de mencionar a magnífica biblioteca do professor, que generosamente ele põe à disposição dos interessados, e à grande quantidade de artigos e livros que escreveu. Quando se aposentou da UFRGS, o reitor, em discurso de homenagem, disse: "Com a aposentadoria do professor Leite, perdem seus alunos um professor que ensina por seus conhecimentos e por seu exemplo". Elogiou "a trajetória de sucesso que construiu, pelo trabalho e pelo mérito, em todas as atividades que participou." E complementou: "A aposentadoria é, para ele, o pretexto que precisava para continuar dedicando-se à cultura, aos estudos e ao ensinamento. Que receba as homenagens a que tem direito e que comece logo a trabalhar". 
 
Que o professor Leite receba essa medalha que nos une, símbolo da Academia Rio-Grandense de Letras, e que agora comece também a colaborar com nossa Academia e que nós possamos desfrutar de seus conhecimentos e de sua tão grata amizade. Bem-vindo, confrade Luiz Osvaldo Leite, é uma honra tê-lo conosco!
 
Muito obrigado.