Digno Presidente da Academia Rio-Grande de Letras, Escritor Prof. Dr. Sérgio Augusto Pereira de Borja, Vice-presidente da ARL, Avelino Collet, Secretário Geral, Rafael Bán Jacobsen, Presidente da Associação Gaúcha de Escritores, Caio Riter, e demais membros da Diretoria. Autoridades presentes ou representadas. Recipiendária, professora e escritora Maria Eunice Garrido Barbieri. Dignos confrades e Dignas confreiras da Academia, familiares da empossada, senhoras e senhores. 

Como primeira manifestação, devo confessar que me sinto honrado por ocupar esta tribuna para saudar a escritora Maria Eunice Garrido Barbieri, nesse ato solene que se repete por centenas de vezes, desde que a Academia Rio-Grandense de Letras foi fundada em 01/12/1901.

E aproveitar o ensejo também para refletir sobre o significado e a importância do que se convencionou designar por Academia. Desde a sua criação por Platão, passando pela inserção no Humanismo, as academias são consideradas centros que se dedicam ao estudo da filosofia, das artes, da literatura da música, da pedagogia, da cultura, da história, da arqueologia e da ciência. Então, é com essas finalidades que as pessoas se reunem. Mas é, também, para lembrar e socializar os feitos realizados pelas pessoas que nelas ingressam e lhes dar oportunidade de multiplicar suas experiências.

Antes de nomear os inúmeros feitos da recipendiária que lhe permitiu a aprovação para o ingresso na Academia Rio-Grandense de letras, valho-me dos resultados de pesquisas de uma tese de doutorado intituladaAlunos de Escola Pública na Universidade Federal do Rio Grande do Sul:  portas entreabertas, defendida em vinte e seis de outubro de 2009 pelo acadêmico João Vicente Silva Souza, sob a orientação da professoraMalvina do Amaral Dorneles, na Faculdade de Educação daquela universidade. O resumo da pesquisa nos informa que, os três parâmetros mais favoráveis para o sucesso no vestibular da UFRGS, de 1977 a 2005, foram: estudar em colégio privado, ter frequentado cursinho pré-vestibular e poder aquisitivo alto na família. A partir de 2005 foi introduzido a variável, presença de leitura familiar e comparada com os demais parâmetros tradicionais. E os resultados demosntraram então que a variável mais importante para o sucesso do aluno no vestibular era a prsença de leitura na família.

Mas quem lê não é quem tem maior poder aquisitivo para comprar livros?, seria certamente a pergunta que faria qualquer pessoa interessada na questão. Pois não foi. A análise categorizada dos dados demosntraram outra realidade. Mostraram que as famílias que mais liam eram de classe média: professores, jornalistas, geógrafos, etc.

Pois bem, vejamos o que nos dizem outras pesquisas levadas a efeito para saber se os brasileiros lêm, já que a leitura é um parâmtro tão significativo na vida futura de qualquer cidadão.

Dados da edição de 2012 da pesquisa intitulada Retratos da Leitura no Brasil, encomendada pela Fundação Pró-Livro e pelo IBOPE Inteligência, mostram que os brasileiros estão cada vez mais trocando o hábito de ler jornais, revistas, livros e textos na internet por atividades como ver televisão, assistir a filmes em DVD, reunir-se com amigos e família e navegar nas redes sociais de computadores, por diversão. A obtida com dados de 2011 revelou uma queda no número de leitores no país, de 95,6 milhões, registrada em 2007, para 88,2 milhões. O índice representa uma queda de 9,1% no universo de leitores ao mesmo tempo em que a população cresceu 2,9% neste período.

A ministra da Cultura, Ana Holanda, disse, após o lançamento da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que é preciso incentivar a leitura nos jovens. "Trabalhando com o jovem, a gente forma o leitor para a vida toda", afirmou. Para a ministra, é preciso afastar o jovem da ideia da leitura como uma obrigação escolar. "É preciso mostrar o livro não como uma obrigação escolar, mas como uma forma de ele conhecer dimensões que estão além dele, outras vias, outras realidades". A presidente do Instituto Pró-Livro, Karine Pansa, acredita que ainda levará tempo para que o Brasil alcance níveis de leitura considerados ideais. "A gente olha para países com índice de oito livros por ano. São países europeus. Isso é um futuro longo e a gente vai ter que batalhar muito por isso", disse.

Valho-me desses dados publicados por centro de pesquisa para que, além de recepcionar a nova confreira, possamos conhecer suas ideias  e  suas ações multiplicadoras com as quais vem atuando por décadas em dois polos de significativo interesse social: estímulo à leitura e produção literária.

Mas onde e quando tiveram começo e se multiplicaram essas ações que permitiram que Maria Eunice estivesse assumindo uma cadeira na já centenáriana Academia Rio-Grande de Letras? E de que modo aconteceu?, poderíamos perguntar para  entender melhor o significado desse nosso ato solene. Não é apenas no seu vasto currículo que encontramos as respostas para estas perguntas. Mas, sim, na entrevista que ela prestou à Diretoria da Academia, quando descreveu o que fazia quando era professora de Português, Francês e Literatura no Instituto Educacional João XXIII e outras escolas, públicas e privadas de Porto Alegre, nas décadas de 1960-1990. Notou-se, então, pelas suas palavras que já trabalhava com o referencial que é preconizado hoje pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para o Mundo, no Século XXI.

Mas por que nos reportarmos às recomendações de um órgão tão importante para o mudo atual como é a UNESCO, neste ato solene? Porque o mundo tem privilegiado dados quantitativos da vida das pessoas. Faço tal afirmativa porque, se fôssemos seguir apenas o caminho estabelecido pelo que consta nas letras e nos números do currículo da professora e escritora Maria Eunice, nós falaríamos apenas sobre sua publicação, seus prêmios, seus cargos, suas participações como patrona em dezenas de feiras de livros, de centenas de conferências em colégios, da importância da leitura. Mas, com apenas à luz desses dados, não conheceríamos o caminho por ela trilhado para chegar até aqui. E este nos parece que deva ser o mais lembrado, por ser significativo e singular.

Para tal, evoco as influências que podem exercer as instituições de ensino sobre os professores e destes sobre os alunos para o futuro de um cidadão e da sociedade. E como prova dessa premissa, evoco as palavras da então candidata Maria Eunice a uma das cadeiras da Academia na sua entrevista: “Quando eu era professora de Português, Francês e Literatura no Instituto Educacional João XXIII tive a felicidade de encontrar uma instituição com propostas pedagógicas inovadoras. A Direção do Colégio desafiava os professores para que trabalhassem num permanente processo criativo com os alunos. Que o saber entendido como consolidado fosse renovado e rediscutido e recriado diariamente”.

E foi então que nos detalhou no que constava seu projeto inovador no trabalho com os alunos. “Ao trabalhar a Disciplina de Leitura e Criação Literária com as turmas, fiz um mergulha na memória para recordar do que mais tinha gostado no colégio, quando era jovem como eles. E o que me motivara tanto para gostar de ler”. E lembrou, então, dos encantos que desfrutara ao ler as páginas da inesquecível Thesouro da Juventude, de Clóvis Beviláqua. Então, no exercício de professora, ao lembrar essa agradável experiência no início da sua vida, decidiu utilizá-la para sensibilizar seus alunos no gosto pela leitura, pelos livros e pala Literatura. Para tanto, propôs uma salutar associação entre teoria e prática, começando pela leitura de um livro muito bem aceito pela crítica de um autor vivo e do local: O exército de um homem só, de Moacyr Scliar. Vencida a etapa de leitura e da compreensão do livro, nada melhor do que conhecer seu autor e ouvir de sua viva voz como procedia para criar as empolgantes histórias, as personagens, as cenas e os cenários. A professora Marô, como os alunos a chamavam carinhosamente, fez o que se admite hoje como processo pedagógico inovador: construiu com os alunos o novo conhecimento, agregando a leitura do livro com a prática do autor presente.

Logo adiante, ao conhecer melhor a curiosidade dos adolescentes anteviu que, para trabalhar com a arte da palavra, precisava brincar com as palavras. Foi então que decidiu criar o projeto de contar histórias e provocar a criação de escritas na disciplina que ministrava. Um projeto que, através de concursos internos de criação foi se consolidando com o repetir dos anos escolares. E, no decorrer das atividades, demonstrando que convivia e vivia a experiência com seus alunos e filhos, quando percebeu que a produção das histórias por eles criadas não atingiam o patamar esperado, ouviu do filho de doze anos uma pergunta que não foi apenas mais um questionamento, senão a chave para o sucesso do projeto e sua inserção no mundo da criação literária.

Eis aí a palavra mágica vinda do filho adolescente:

─ Mãe, por que tu não crias uma história para meus colegas, em vez de contar histórias dos outros? Assim, eles podem perceber que também podem criar histórias.

Podia ser uma simples pergunta de um filho para sua mãe, cujo resposta não tivesse eco, como acontece, às vezes, com as perguntas dos filhos aos pais. Mas não.  Essa pergunta colocada em seu devido lugar tinha amparo na máxima que muito contribui quando tratamos de criação artística ou literária, qual seja: mostre e não fales, faça e não diga.

Foi então com essa singela pergunta vinda do filho de doze anos que os alunos viram a Professora Marô ler sua primeira história, criada para eles e com eles: A minhoca cansada. E surgiu logo a segunda: Primeira minhoca surfista brasileira. E vieram outras e mais outras criações da Literatura Infanto-Juvenil, completando hoje 27 obras publicadas.

Mas onde se enquadra essa postura pedagógica, dentro do contexto do mundo atual, repleto de inovações e de crescimento exponencial e diário de novos saberes?

Para entendermos melhor as atitudes e os feitos da professora Marô, volto a me referir às recomendações contidas no Relatório da Comissão Internacional da UNESCO sobre educação para o século XXI, publicado em 2010: “A educação ao longo da vida deve basear-se nos pilares: aprender a aprender, aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser”.

Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, suficientemente ampla, com a possibilidade de estudar, em profundidade, um número reduzido de assuntos, ou seja: aprender a aprender, para beneficiar-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida.

Aprender a fazer, a fim de adquirir não só uma qualificação profissional, mas, de uma maneira mais abrangente, a competência que torna a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Aprender a fazer no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho, oferecidas aos jovens e adolescentes, seja espontaneamente na sequência do contexto local ou nacional, seja formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.

Aprender a conviver, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-se para gerenciar conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz.

Aprender a ser, para desenvolver, o melhor possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de autonomia, discernimento e responsabilidade pessoal. Com essa finalidade, a educação deve levar em consideração todas as potencialidades de cada indivíduo: memória, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se.

Vê-se, então que nossa recipiendária, Maria Eunice Darrigo Barbierijá trabalhava, no seu ofício de professora, nas décadas de 1960-1990, como preconiza agora a UNESCO a educação para o Século XXI.  E isso se tornou realidade porque a professora Maria Eunice entendeu cedo qual era o verdadeiro papel do professor: o de multiplicar de sonhos e de ideias.

Mas quem é e o que fez mais nossa recipiendáriapara atender aos requisitos do artigo 5º do estatuto da Academia?

Maria Eunice Garrido Barbieri nasceu em Bento Gonçalves/RS, em 21 de abril de1944. Residente em Porto Alegre. Graduada em Licenciatura Plena em Letras (Língua e Literatura Portuguesa e Língua e Literatura Francesa) pela Pontifícia Universidade Católica do RS (PUC/RS).

Professora de português, francês e literatura – Docência de 1º e 2º Graus no Instituto Educacional João XXIII – Escola de I e II Graus (1964 a 1994) – Colégio Santa Família (1966) – Colégio Menino Deus (1967) – Colégio Rosário (1970) – Colégio Israelita Brasileiro (1983/84).

Como escritora e promotora da leitura particípio de dezenas de atividades locais, nacionais e internacionais, dentre as quais, destacam-se a de Membro do corpo de especialistas em leitura da Casa da Leitura/Proler/Fundação Biblioteca  Nacional– Rio de Janeiro. Consultora responsável do programa de oficinas da Descentralização da Cultura da Coordenação do Livro e Literatura– Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre – RS – 2001. Coordenadora do grupo de Contadores de Histórias – “Tecendo Histórias”, que participou de eventos culturais no CEDEL, na Casa Madre Giovanna, em escolas, praças, hospitais e ônibus – Porto Alegre – 2001 a 2004.

Escritora/contadora convidada do Encontro Internacional de Contadores de Histórias e da Maratón de Cuentos – Biblioteca Municipal de Guadalajara – Guadalajara – Espanha – junho/2003. Escritora/oficineira- convidada do Groupe Français de L´Éducation Nouvelle (GFEN) no Rencontre Internationalle de L´Éducation Nouvelle – Malonne – Bégica, julho/2003. Participante de atividade literária num encontro internacional na França como escritora convidada, em 2003.

Integrante do júri do Concurso Poemas nos ônibus – edição 2005 – Coordenação do Livro e Literatura da SMC da Prefeitura de Porto Alegre – RS – Brasil Integrante do Conselho Estadual de Cultura, 2004/2005.

Criadora e produtora do 1º e 2º Fórum de Literatura Infantil e Juvenil – promoção da Casa de Cultura Mário Quintana – POA – RS (1º) e SMC da Prefeitura de Porto Alegre (2º) – 18 e 19 de abril/2007 e 18 e 19 de abril /2008 – Porto Alegre–BR

Criadora e produtora do Projeto Vento de Letras – escritores de literatura infantil e juvenil em Osório – SMED da Prefeitura de Osório – RS–1ªedição(2008), 2ªedição(2009)

Integrante do júri do Prêmio Açorianos de Literatura Infantil – para Coordenação do Livro e Literatura da SMC da Prefeitura de Porto Alegre – Porto Alegre – RS -2009

Escritora/contadora convidada do 3º Fórun Mundial de Especialistas en Dramaturgia Infantil y Juvenil – de 16 a 22 de março de 2009 – Santiago – Chile.

Escritora/contadora convidada do 1º e 3ºPrimaverarte – dezembro/2009 e novembro de 2011 – organização do Grupo de teatro Acuarela – Ciudad de La Costa – Uruguai.

Presidente da Associação Gaúcha de Escritores  (AGEs) – gestão 2001/2003, gestão 2003/2005 e gestão 2010/2011. Na sua primeira gestão na Associação Gaúcha de Escritores, criou o Prêmio Literário Livro do Ano, para as diversas categorias de livros. Os associados votam em cada livro que entender como o melhor de seu gênero e os vencedores agraciados com um troféu criado para tal fim por artista plástica. Prêmio que, mantido pelas sucessivas diretorias, se encontra na 12º edição.

Como escritora de literatura infantil e adulta publicou dezenovelivros e participou de 8 antologias de contos e poesia. Participou de oitenta oficinas de Literatura Infantil no Rio Grande do Sul, nove em nível nacional e sete no exterior. Foi Patrona de Feira do Livro em vinte e duas cidades do RS, em dezenove escolas e em quatro bibliotecas.

Pelo exposto, depois da aprovação da Comissão de Sindicância e Crítica, como proponente da candidata resta-me afirmar: será uma honra  para nós contarmos com sua presença nesta centenária Academia Rio-Grandense de Letras, professora, escritora e promotora da leitura, Maria Eunice Garrido Barbieri.

 

Waldomiro Carlos Manfroi

Ocupante da Cadeira 30