Excelentíssimo senhor Doutor Avelino Alexandre Collet, digníssimo Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, na sua pessoa saúdo as autoridades, acadêmicos, parentes do homenageado e amigos.
 
Manda a tradição que a recepção inicie pela biografia do novo acadêmico, dizer dos seus estudos, dos seus feitos culturais e educacionais, dos seus textos.
Dr. José Nedel fez a sua parte e encaminhou resumo do seu currículo; o resumo possui 38 páginas, espaço um, papel A4 quase sem margens. Lendo às pressas, precisaria de 190 minutos, ou 3 horas. Bem, se os senhores quiserem...
 
Permito-me, contudo, falar da sua pessoa, da sua existência, afinal é o que importa.
José Nedel é um filósofo simples, como simples é o seu nome.
Alguém há de ter dito que a humildade só cabe numa grande e expressiva pessoa.
Na lição de Mira Y López, em obra que me acompanha há quarenta anos, ele escreve que "o vaidoso procura convencer-se de que não tem motivo para se sentir inseguro posto que julga valer mais do que os outros. Mas sua vaidade indica que está convencido justamente do contrário". "A vaidade é vã, vazia, ineficaz, inoperante", afirma o mestre.
A humildade em geral está casada com a generosidade e a pessoa generosa é aquela satisfeita consigo mesma, disposta ao outro, pronta para servir o próximo.
Assim é José Nedel, o nosso novo acadêmico, amigo, irmão.
Ele é filósofo. E como filósofo não se comporta como sábio, mas como aquele que pergunta, que investiga a natureza humana e a possibilidade de se obter a felicidade.
A Obtenção da Verdadeira Felicidade é um dos seus textos enquanto professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia, na Unisinos.
Nesse estudo, Nedel conclui que:
“A noção de felicidade, para o homem atual, tornou-se subjetiva, reduzida que foi ao sentimento de ser feliz. Para muitos conota à inclinação egoísta que faz referir tudo ao interesse individual. Orientado pelo utilitarismo para a satisfação do seu bem-estar material, o desejo de felicidade perdeu seu elã espiritual propulsor do agente na direção da virtude, com vistas ao fim último da vida.”
 
E, mais ao final, observa Nedel que o desejo de felicidade é natural e tudo consiste em discernir onde reside a verdadeira felicidade.
A generosidade em José Nedel está descrita no seu poema DOAÇÃO:
 
Quem faz da sua vida um dom aos seus irmãos
também se lucra inteiramente para si.
Ao me engajar em falsos egoísmos vãos,
em vez de engrandecer-me, sempre decresci.
 
Segundo o verbo da Sagrada Escritura
melhor do que outro feito singular qualquer
é de si próprio, de seus bens ou da cultura
aos outros dar, em vez de apenas receber.
 
Dai e se vos dará, ressoa tal preceito
que muitos cumprem com intenso desagrado,
ao caráter do homem joga-se o defeito
aos bens terrenos acabou escravizado.
 
Difícil é doar, se assim a gente pensa.
Não é – pois haverá divina recompensa.
 
E, para finalizar, trago a palavra do poeta, que José Nedel é filósofo e poeta, e na poesia ele assina o seu modo de existir. O título: MULTIPLICAÇÃO.
 
Cinco pães, não os tenho nem dois peixes
para a mesa da multiplicação.
Mas de versos possuo muitos feixes
deles eu formarei minha oblação.
 
Valho-me aqui da mística que soa
não só de pão o homem se alimenta
mas também de palavra, santa ou boa
que o espírito sacia e dessedenta.
 
Meus versos, quero vê-los degustados
sem travo, rejeição e sem dilemas
como se fossem pães multiplicados
da minha humilde cesta de poemas.
 
Milagre assim, sem dúvida, acontece
desde que a gente a repartir comece.
 
José Nedel é grande como intelectual e maior como pessoa.
Seja bem-vindo, confrade, o recebemos com braços abertos.
 
 
 
 
José Carlos Rolhano Laitano
28 setembro 2017