Lauro Trevisan
Dia 30 de junho de 2011
Porto Alegre – Memorial do rio Grande do Sul

       Que direi aqui, como neófito da Academia Rio-Grandense de Letras, de tantas glórias literárias, ao assumir a palavra diante das mais altas expressões da arte escrita e de tantas personalidades que honram a nossa literatura?

       Nos meus tempos de seminário, era eu fascinado por oradores famosos, como Demóstenes, o grego que burilava a voz e a linguagem colocando pedrinhas na boca; o inesquecível Cícero, do Império Romano, em seu “Quousque tandem abutere Catilina patientia nostra?” (Até quando abusará Catilina de nossa paciência?) E o sempre lembrado Padre Antônio Viera em seu sermão aos peixes. Entre os contemporâneos, fui bebendo os arroubos oratórios de Alberto Pasqualini, Carlos Lacerda, e os padres Abílio Sponchiado e Dorvalino Rubin, entre tantos outros. Mas, neste momento, reporto-me a um fantástico orador sacro, que desde meus anos de estudante jamais fugiu-me da memória. As igrejas do império regurgitavam de gente, na ânsia incontida de ouvir a sua palavra veemente, brilhante e irresistível como uma sinfonia de Beethoven. Já no final de seu tempo nesse planeta, quis o destino implacável que a cegueira e a doença o confinassem ao convento e ninguém mais ouviu sua voz, até que, após 18 anos de silêncio, a convite de Dom Pedro II, o Rio de Janeiro acorreu ao templo para comover-se com seu canto de cisne, no histórico sermão da festa de São Pedro de Alcântara. E o grande Frei Francisco de Monte Alverne – esse era seu nome - subiu ao púlpito e começou: — “É tarde... é muito tarde! Já não poderei acabar o quadro que esboçara”. Essa frase de Monte Alverne, carregada de emoção saudosista, nunca mais deixou de percutir nos meus ouvidos, como se estivesse na escuta do grande orador.

       Pois, neste momento, não resisti à tentação de plagiá-lo às avessas e dizer: “É cedo... é muito cedo... ainda não poderei acabar o quadro literário que esboçara para as eminentes personalidades da Academia Rio-Grandense de Letras”. No entanto, penso que esse gesto humilde há de encontrar amparo na boa vontade e tolerância de todos os que aqui se encontram.

 

       O LIVRO

       É sabido por demais que todos os que passaram pela Academia e todos os que atualmente ocupam cadeiras, são pessoas devotadas à cultura, ao lirismo do verso e aos arroubos da palavra escrita, tendo lançado obras que seguem percorrendo as mentes que buscam ampliar seus horizontes intelectuais.

       O livro, não se faz mister repetir, é um amigo dócil, paciente, fiel, sempre disponível e sempre tomado de santa resignação quando jogado nalgum canto obscuro da prateleira, ou, pior ainda, quando queimado drasticamente como uma Joana D´Arc de papel.

       Lembro um episódio ocorrido com Honoré de Balzac. Retornando de uma noitada festiva com amigos, onde se falou de tudo aleatoriamente, entrou na sua biblioteca, desvestiu o paletó, esfregou alegremente as mãos, olhou para a estante das obras dos grandes mestres, e exclamou: “Agora é a vez dos homens de verdade!”.

       Quem não conhece esses versos de Castro Alves, poeta que me encantou, desde os bancos escolares:

“Oh, bendito o que semeia
Livros, livros a mancheia 
E faz o povo pensar!
O livro, caindo n’alma,
É germe - que faz a palma,
É chuva que faz o mar”.

       O livro, na verdade, não é apenas germe que faz a palma e chuva que faz o mar. A ciência médica lhe confere função importante no que diz respeito à saúde cerebral. Diferentemente do cinema e da televisão, que oferecem ideias e imagens feitas, o livro faz a pessoa imaginar a cena, aguilhoa a fantasia, obriga a pensar e a concatenar conceitos, dessa maneira ativando neurônios, abrindo saudáveis conexões, desencadeando hormônios benéficos, com isso não apenas enriquecendo a mente, mas também mantendo a juventude do cérebro. E isso é sobremaneira significativo nesses tempos alzheimerianos. Eis um aspecto pouco conhecido dessa maravilha chamada livro, com a qual nós, acadêmicos, mantemos amorosa intimidade, como o fazia Honoré de Balzac.

 

       LIVRO VIRTUAL

       Hoje, com a escalada alucinante da tecnologia, surge, na telinha da internet, o livro virtual, descarnado, impalpável, descartável, árido e sem vida própria. Não sou contra a corrente e nem travado no tempo e no espaço, mas não percebo sensação mais agradável e afetuosa do que a pessoa poder carregar consigo, no bolso ou na bolsa, em total cumplicidade amorosa, o livro de papel, poder desfrutá-lo, apalpá-lo, riscá-lo em acordo ou desacordo, no ônibus, no trem, nas matas amazônicas, no pico do Everest, na praia, em qualquer recanto inóspito. E digo mais: se no inferno houvesse uma biblioteca, o calor insuportável desse deserto de fogo seria amenizado pela leitura de livros maravilhosos. 

       De mais a mais, o livro pode ser oferecido, em qualquer momento, como presente carinhoso autografado e tornar-se presença na vida e na família de quem o recebe.    

       Sim, eu sei que há os que se abraçam na internet e prenunciam a morte e o desaparecimento do livro de papel. Dias atrás, estava eu percorrendo os jardins e os corredores da Fundação Gulbenkian, em Portugal, e deparei-me com um folheto que me chamou a atenção. Não consigo deixar de citar um pequeno trecho aqui pelo significado que pode oferecer às minhas palavras. Registrava o folheto: “Marcel Duchamp (artista francês) terá dito: “A pintura está condenada.  Quem poderá fazer melhor que uma hélice?” Man Ray (fotógrafo e pintor norte-americano) escreveu: “Quando surgiu o automóvel, muitos afirmaram que o cavalo era a forma mais perfeita de locomoção. Não conheço ninguém – conclui o prospecto - que tente abolir o automóvel porque temos o avião”.   De minha parte, poderia assinalar ainda os que previram o velório das rádios com o evento da televisão e, no entanto, as emissoras continuam mais vivas do que nunca, falando para o mundo. Há, ainda o argumento dos ecologistas a favor do livro virtual, mas hoje já existem indústrias de papel reciclado branco como os tradicionais e de papel feito de reciclagem de plástico, e outras tecnologias surgirão.

 

       O SONHO E A UTOPIA

       Neste momento, eu começo a sonhar. Mirum somniavi somnium – como disseram os antigos. (Sonhei um sonho maravilhoso). O sonho é o lampejo inicial dos grandes inventos e dos grandes passos dados pela humanidade. Walt Disney, o mago de tantos sonhos realizados, mandou fixar no frontispício de sua maior obra: “Se tu podes sonhar, podes realizar”. Então, num rasgo delirante, sonhei que o maravilhoso espaço portuário existente diante das águas poéticas do Guaíba tinha se transformado no ponto turístico e cultural mais importante e atrativo do Rio Grande. Em lugar dos depósitos e do muralhão que esconde a maravilha das maravilhas da natureza, havia, no meu sonho, jardins, museus, bibliotecas, teatro, porto turístico, restaurantes típicos da culinária gaúcha, bares, cafés, cinema, centro de exposições, praças e monumentos. E, beijando as ondas desse mar de água doce, havia um grande e portentoso prédio em formato arquitetônico de livro, tendo na fachada a legenda garrafal: “Academia Rio-Grandense de Letras”. Seria o caso de rir, mas, se Sidney, na Austrália, pôde construir um imenso espaço cultural no formato de casca de laranja, se Pequim ergueu um fantástico estádio em forma de ninho de pássaro, por que não se pode edificar aqui em Porto Alegre um deslumbrante edifício em forma de livro? No piso superior desse imenso livro, olhando apaixonadamente para o Guaiba, eu vi a sede oficial da Academia Rio-Grandense de Letras, panteão vivo dos imortais gaúchos, com todos seus departamentos imprescindíveis, não faltando sequer a sala aconchegante dos chás literários.

       No piso abaixo, a Academia Rio-Grandense de Juniores, acolhendo a efervescência da juventude das Letras, sob os auspícios dos Acadêmicos Maiores.

       Logo a seguir, no outro andar, a sede da Academia Gaúcha de Letras, habitat cultural dos famosos escritores e poetas do nosso gauchês. Mais abaixo, Museu de Cera dos Patronos da Academia e acadêmicos que ocuparam cadeiras, todos com suas obras à mostra.

       Descendo mais um piso, a grande biblioteca gaúcha, com as obras de todos os escritores da terra, dotada dos recursos da modernidade, estantes de leitura e setores de comentários sobre livros de consulta.

       Nos andares inferiores, salas de oficinas e seminários literários, assim como setores de incentivo aos que buscam os primeiros voos literários, na ânsia de se  tornarem escritores, sem faltarem salas de aulas de literatura, jornalismo, roteiros de filmes, novelas e biografias televisivas. E é evidente que não podia faltar um grande auditório moderno para brilhantes e memoráveis apresentações públicas de cunho cultural.

       No térreo, beijando as águas: restaurantes, bares, cafés e choperias, como pontos de encontro de escritores, jornalistas, artistas, onde visitantes e fãs possam chegar, conhecê-los e conseguir autógrafos.

       Eis uma adorável alucinação que poderia colocar o Rio Grande na vanguarda cultural do mundo, sob a égide, quiçás, de um ousado e visionário governo gaúcho. Basta ter os pés no chão, mas a cabeça nas estrelas. Ou então, surgiria um Calouste Gulbenkian gaúcho ou um mecenas brasileiro, porque, afinal, dessa vida só se leva a vida que se leva. Ninguém conhece o dono da maior indústria do mundo, mas todos conhecem Alfredo Nobel, Michelangelo e Beethoven. O cientista Albert Einstein disse que “o impossível existe até que alguém duvide e acabe provando o contrário”.

       Quem sabe das precárias instalações da Academia Rio-Grandense de Letras, não condizentes com a grandeza e a dignidade dos beneméritos escritores que elevam o nome do nosso Estado e promovem o incremento da leitura, há de reconhecer que um país jamais subirá às dimensões de primeiro mundo enquanto a cultura estiver afundada no terceiro mundo.

       Aqui, senhoras e senhores, acaba a magia do meu sonho delirante. Fim do recreio. A partir de amanhã, prometo ao senhor Presidente da Academia deixar de voar nos céus azuis da fantasia e entrar nos eixos da realidade. Mas, continuarei sonhando.

 

       PATRONO JOÃO DA SILVA BELÉM

       É praxe, no discurso de posse, tecer referências ao patrono da cátedra a ser ocupada.

       A cadeira 28, que, neste momento, me é dada a honra de exercer, tem a marca de memoráveis santa-marienses, a começar pelo patrono, o escritor, poeta, historiador, teatrólogo, conferencista e professor João da Silva Belém. Nasceu ele em Porto Alegre, em 1874, mas, desde 1902 até sua morte, em 1935, fez-se santa-mariense de alma e coração. É autor de Aerólithos, obra em prosa e verso, assim como dos livros de poesia Páginas Perdidas e Musa Ferina. Após longa pesquisa, deixou-nos a História do Município de Santa Maria. Como conferencista, teve publicados dois textos muito valorizados na época: “A Arte” e “Dia da Bandeira”. Também, com sua verve irreverente e espírito crítico da sociedade contemporânea, escreveu dramas, operetas e comédias encenadas em Santa Maria, Porto Alegre e outras cidades. Como jornalista, destaco sua ação como secretário do jornal O Estado, diretor do jornal O Viajante, co-proprietário do jornal O Combatente, chefe de redação de A Tribuna,diretor do jornal 14 de Julho, e redator do Jornal de Notícias, além de presença ativa nas revistas A Reação, Farpa e, ainda, a revistaCastália.

 

       EDMUNDO CARDOSO E ANTONIO AUGUSTO BRUM FERREIRA

       Os dois mais recentes acadêmicos que honraram a cadeira 28 foram santa-marienses pelos quais eu guardo imensa admiração. Antes do meu antecessor imediato, ocupou essa cátedra o  santa-mariense Edmundo Cardoso, homem de teatro, diretor e ator de mais de 50  peças. Com sua vasta cabeleira jogada para trás, corpo de vistosa presença, espírito nobre, inteligência exuberante, Edmundo Cardoso fazia parte de todas as rodas culturais, principalmente as voltadas ao teatro; inclusive, sonhou e lançou a primeira pedra do prédio que seria o Teatro Leopoldo Fróes, sonho que foi com ele para a sepultura.

 

       ANTONIO AUGUSTO FERREIRA

       Mas, neste momento, meu coração saltita de alegria ao cumprir o protocolo de homenagear meu antecessor imediato, pois se trata do grande amigo Antonio Augusto Brum Ferreira, exímio contador de histórias, poeta conceituado, e exitoso letrista de canções gaúchas, homem que carregava a cultura dos pagos nos recônditos mais nobres do seu coração.     

       Antonio Augusto não é originário de Santa Maria, mas dificilmente se encontrará um cidadão mais santa-mariense do que ele. Nascido em São Sepé, depois de percorrer os caminhos de várias cidades, inclusive Porto Alegre, ancorou no Coração do Rio Grande, e durante trinta e cinco anos, até sua morte, deu-lhe o melhor do seu carinho, talento e arte, além da competência profissional no Cartório de Registro de Imóveis. Sua alma gaúcha se derrama em contos, poemas, e versos para muitas músicas que hoje são clássicos do cancioneiro dos pampas, por exemplo as letras vencedoras das canções nativistas: Veterano, Entardecer, Pago Perdido, Contrabando, Descaminho, Sol de Maio, Como Uma Taleira, Negro Bonifácio, Visita, Renascimento, Alma de Poço, Flor de Campeira, Calor de Brasas, Campeiro, A Estátua do Laçador -  algumas dessas com  parcerias. Em rodeios de poesia, teve premiadas: Sonho Criador, Retrato, Meu Pai e Eu e, ainda, O Combate de Rio Negro.       Publicou quatro livros de poesias: Sol de Maio, 1985; Alma de Poço, 1997; Coisas da Vida e também Coisas do Campo, em 2005. Em prosa, lançou Tio Bonifa e Seu Cachorro Piraju.

       Ajudou a fundar a Academia Santa-Mariense de Letras, na qual foi presença constante e valiosa. 
       Foi Patrono da Trigésima Feira do Livro de Santa Maria, 2003
       Recebeu o Mérito Literário pela 4ª Sesmaria da Poesia Gaúcha de Osório, 1999;
       Mérito Literário pela Associação Santa-Mariense de Letras, 2001;
       Troféu Negrinho do Pastoreio da Poesia Campeira, pela Associação Gaúcha dos Municípios; 
       Comenda Prado Veppo, pela Câmara de Vereadores de Santa Maria, 2002. 
       Isso é um pouco do inesquecível Antonio Augusto Brum Ferreira, também conhecido por  Tocaio Ferreira, chegado a Santa Maria em 1973, e falecido em 2008, com 72 anos, deixando sua esposa Letícia, co-fundadora da Academia Santa-Mariense de Letras,  e quatro filhos: Mauro, poeta-letrista, compositor e cantor nativista várias vezes premiado; Vânia, Telmo e Sílvia.

       Talvez já sentindo os arrulhos do Além, escreveu esses jocosos e inteligentes versos:

 

       PONTUAÇÃO DA MORTE


Leia-se bem a Morte:
Morte, vírgula; ou morte, ponto.
Atente-se à pontuação:
Depois da vírgula, segue;
Mas depois do ponto, não.

Para os da vírgula
é preciso crença,
o ponto, não,
o ponto dispensa.

Há quem pontue a morte
Com uma interrogação:
estes estão no escuro.
Há também os reticentes...
Morte em cima do muro.

E eu, afinal?
Depois da morte,
Ponto final.

 

       Não poderia deixar de citar a poesia VETERANO, com certeza a mais conhecida e lembrada, pois, com a musicalização de seu sobrinho Ewerton Ferreira, conquistou a Calhandra de Ouro da 10ª Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana. Nesse evento, classificou ainda, em primeiro lugar, Entardecer e Pago Perdido e, diga-se de passagem, essa era a primeira vez que tomava parte em movimento musical nativista.

       VETERANO

Está findando o meu tempo, a tarde encerra mais cedo.
Meu mundo ficou pequeno e eu sou menor do que penso.
O bagual tá mais ligeiro, o braço fraqueja às vezes.
Demoro mais do que quero, mas alço a perna sem medo.
Encilho o cavalo manso, mas boto o laço nos tentos.
Se a força falta no braço,  na coragem me sustento.
(Se lembro os tempos de quebra, a vida volta pra trás,
Sou bagual que não se entrega assim no más) 
2
Nas manhãs de primavera, quando vou parar rodeio,
Sou menino de alma leve voando sobre os pelegos.
Cavalo do meu potreiro mete a cabeça no freio.
Encilho no parapeito, mas não ato nem maneio;
Se desencilho, o pelego cai no banco onde me sento.
Água quente e erva buena para matear em silêncio.
3
Neste fogo onde me aquento remoo as coisas que penso,
Repasso o que tenho feito para ver o que mereço.
Quando chegar meu inverno, que me vem branqueando o cerro,
Vai me encontrar, venta aberta, de coração estreleiro,
Mui carregado de sonhos que habitam o meu peito
E que irão morar comigo no meu novo paradeiro.

*** 

       Quero deixar meu carinho a esse gaúcho que engrandeceu Santa Maria e a Academia Rio-Grandense de Letras, com os últimos versos do seu poema

       MEU PAI E EU


(...)
Hoje a vida passou, vou cerro abaixo,
O corpo vai sofrendo seus estragos,
Mas me alegra saber que o coração
É pedra doce, fácil de amoldar,
E que sofre sozinho nos seus medos
E jamais reparte seus fracassos
Pois não lhe permitiram nunca
O direito de chorar.
É nessas horas que meu velho
Volta e me levanta na palavra:
- Assim é a vida, só vence quem lutar.
Aperta o coração, firma o braço,
Ergue a cabeça e segue em frente.
Lá é seu lugar.

       Para concluir essa homenagem, permitam-me falar diretamente com Antonio Augusto, onde quer que esteja, através do celular do coração: “Alô, meu amigo Tocaio Ferreira! Muito obrigado por ter sido o primeiro a se empenhar para que eu ingressasse na Academia Rio-Grandense de Letras, essa Academia que você engrandeceu durante seus últimos quatro anos de vida”.

 

LAURO TREVISAN

       Senhoras e senhores, também faz parte do ritual de posse, o novel acadêmico falar sobre si mesmo, o que me faz tentar a magia de manter o equilíbrio entre a ostentação e a modéstia inútil. O que me encoraja, neste momento, são as palavras do filósofo Sêneca, que teria dito: “Quem olha apenas para as coisas dos outros, não usufrui as próprias”.

       Se irromper dizendo que lancei 68 livros nos mais diversos gêneros literários, como psicologia, autoajuda, contos, poesias, teatro, infantis, infanto-juvenis, romances, humorismo, espiritualidade – talvez dirão que caí na vala comum da autoincensação. Mas, o discurso de posse me obriga ainda a citar os cursos de Filosofia, com pós-graduação, Psicologia, Teologia, Oratória, ascese, Exegese, História, acrescendo cursos de Parapsicologia, Psicanálise Humanista, Controle Mental, Nove Domínios da Consciência, Curso Shapiro de Administração... e por aqui fico.

       Porém, o que mais me tem fascinado ao longo do tempo, é a ciência do poder da mente, com sua visão voltada para as potencialidades humanas e a capacidade de autorrealização do indivíduo. Nesse ponto, os ensinamentos do maior Sábio que já pisou esse planeta me deixaram e continuam me deixando ousadamente motivado. Antecedendo-se ao tempo e perturbando as certezas da ciência, proclamou Ele repetidamente, com todas as letras, que há um poder no ser humano que move montanhas, cura enfermidades, produz milagres, tudo alcança e torna possível o impossível. Foi no rastro desses estudos iniciados em 1975, que nasceram meus livrosOs Poderes de Jesus Cristo, A Fé que Remove Montanhas, Jesus Precursor e Anunciador da Nova Era e, ainda, A História Viva de Jesus. No Brasil, o principal best-seller é O Poder Infinito da Sua Mente, tendo atingido a tiragem de um milhão e sessenta mil exemplares; e a soma de todos vai a dois milhões e seiscentos mil exemplares. Foram publicados 25 livros na Argentina, um título no Paraguai, 20 em Portugal, dois na Espanha e um na Bulgária. O que ajuda a promover as leituras são as 560 Jornadas e palestras realizadas no Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, Portugal, Alemanha, Espanha e EUA.

       Durante vários anos, escrevi crônicas para o Jornal A Razão; hoje colaboro para a Revista Z, de Zero Hora, e para a revista Zen Energy, de Portugal.

       Sem querer abusar da paciência, como o fizera Catilina, de acordo com o discurso de Cícero, vou respingar um pouquinho de prosa e poesia.

       Escolhi, inicialmente, este pequeno texto do meu livro O Velho Monge do Castelo:

       “Mal o horizonte pincelava tênues nuances de luz matinal e já o monge percorria, de pés descalços, a trilha de relva no entorno do Lago Bestle. Respirava com prazer o ar puro da manhã. Sentia a frescura dos pés pisando a grama umedecida pelo sereno da madrugada. Era-lhe delicioso sentir a energia telúrica subir pelas extremidades e inundar o corpo todo, como se do seio da terra emergisse um vapor etéreo celestial. Como acontecia a cada alvorecer, sua alma cantava a festa da vida.

       O lago jazia ainda adormecido. Apenas aqui e acolá meigos debruns dos albores da manhã se refletiam em alguns pontos das águas.

       Dentro em breve, o sol se ergueria sobranceiro sobre a montanha e daria início ao grandioso espetáculo da vida. E ele, o monge, já estava a postos para aplaudi-lo com entusiasmo.

       - Espetáculo da vida! – exclamou ele. – Espetáculo da vida! ( p 42/43).

***

       Estamos no Rio Grande do Sul, por isso selecionei este trecho de um artigo sobre o gaúcho.

 

O Gaúcho
(Trecho de uma crônica)

       Lá vai ele, de rédea solta, troteando despacito, em charla silenciosa com seu potrilho, que, de quando em quando, dá um relincho de faceirice incontida. Ambos nasceram no pampa e se entendem às mil maravilhas. Até o cão, que tenta acompanhar o dueto, se esmera por fazer parte dessa conversa desconversada.

       Lá vai ele, de chapéu arqueado na testa, pala solto ao vento, cabeça alinhada no horizonte sem fim, crente de que este chão  pampeano, de hábitos, canções e idioma próprios, é a única coisa que existe no mundo. Aqui se fala o gauchês, se veste a la gaúcha, se canta gauchismo, se faz gauchada. Até a alma é gaúcha, aquela alma solitária, nobre, hospitaleira, às vezes nostálgica, com pendor natural para profundas meditações existenciais.

       Uma chaleira de água quente, uma cuia, erva-mate e bomba, às vezes um palheiro enrolado a capricho, eis o ritual da paz e da fraternidade.

       Lá vai ele, contando causos do arco-da-velha, pondo vida no negrinho do pastoreio, metendo alma penada no boitatá.

       Lá vai ele, certo de que Deus é gaúcho e Nossa Senhora é a primeira prenda.

       O gaúcho, acima de tudo, é um forte. E tem o coração do tamanho dos campos sem fim.

***

       Gostaria, ainda, de oferecer esta crônica que publiquei na revista Z, de Zero Hora.

       Que mundo é esse?

       Depois de ler o jornal e ver o noticiário da tevê, fiquei olhando o horizonte pela janela do quinto piso e meu olhar vagueou, vagueou, percorrendo distâncias inimagináveis. Voava com o ímpeto da luz e a calma da meditação. Era como se estivesse numa nave interplanetária: o foguete seguia esfuziante, mas, dentro, a paz e a serenidade. E vi dois mundos.

       Alguém me dizia:

       - No projeto era para ser apenas um, mas se tornaram dois. Este aqui, que eu fiz, é o primeiro mundo, diferente do primeiro mundo que vocês inventaram. Eu não sou deste mundo aí. Eu sou do Alto. O mundo verdadeiro é o de cima. O de baixo, no projeto, seria a continuação. Dois andares da mesma casa. Mas não vejo nada disso. O que é que está acontecendo com vocês?  Criei o amor para ser a essência da vida e vocês não se amam, se exploram, brigam pelo metal que me substituiu, uma péssima troca, diga-se de passagem. E o fruto do metal foi enrijecer a alma e petrificar o coração.  Sei que vocês de vez em quando ficam apavorados com chacinas, bombas, fogo amigo, assassinatos a sangue frio como se estivessem chutando uma pedra do caminho. Quem é que vocês escolhem para governar o planeta? Pessoas que amam ou que produzem dinheiro? Pessoas que visam o bem geral ou que prometem aumentar o tesouro nacional? Pessoas de respeito e honestidade ou gente de linguagem sedutora? No meu projeto, o mundo é uma casa linda, florida, sem poluição, agradável, espaçosa, e os seus habitantes uma família. Vocês preferiram revirar esse mundo e plantar medos, desconfianças, grades, filmadoras públicas, vigilâncias. No meu projeto, há comida para todos, mas vocês inventaram um jeito de lucrar em cima da fome. Eu fiz vocês saudáveis, mas preferiram amontoar doentes nos corredores dos hospitais, dar-lhes remédios feitos de farinha, e mandar embora para que se danem em algum canto da vida. Pois é, eu fiz um mundo só, o de cima e o de baixo, o de Deus e o dos homens, o do amor de lá e o do amor de cá, mas vocês confundiram alhos com bugalhos, e resolveram fazer um mundo próprio onde uns se conflitassem com os outros, para alguém lucrar com isso e ficar com os troféus. Um dia descobrirão a verdade. Um dia descobrirão. Não precisa haver milhões de assassinatos de velhos, jovens, crianças, para perceberem que o descaminho jamais levará ao caminho. Será que não existem vinte justos, dez justos, no governo de cada país?   Será que o mundo precisa virar estátua de sal? Não, não pense que desisti da humanidade. Não desisti e nem desistirei. Nunca abandonarei o que projetei com tanto carinho. No fim do túnel há luz. Milhões de velas farão as estrelas brilhar. Por sinal, basta a luz de um simples fósforo para acabar com a escuridão de bilhões de séculos. Se eu pudesse dar uma entrevista numa rede de televisões do mundo, diria novamente: “Só o amor faz a vida, a saúde, a prosperidade, a fraternidade e o bem-estar dos indivíduos e dos povos”. Sei que muitos vão rir. Mudarão de canal, irão saciar-se nas novelas, nos acidentes, nas chacinas de escolas. E continuarão vendo, com horror, consciências estraçalhadas, vidas destruídas, lobos avançando sobre ovelhas. E comentarão nos debates: Que mundo é esse? 

***

       Por fim, para encerrar, dedico-lhes a poesia de título:

AMOR

Hoje amanheci sorrindo
De alegria e de emoção
Porque o meu coração
Brincava ao nascer do sol...
Espelhava-se no orvalho,
Saltava de galho em galho
Pelas cordas do arrebol...
Meu coração era um pássaro
Voando pela cidade
No vôo da liberdade
No gorjeio da alegria...
Meu coração, que beleza!
Era a própria Natureza
Cantando o nascer do dia!
Meu coração todo em festa
Fazia a festa do amor
Abrindo-se como a flor
Se abre ao alvorecer...
Era um momento de encanto
Eu gostei tanto, mas tanto,
Que jamais posso esquecer!
De repente, nesta festa,
Você surgiu como fada,
Como princesa encantada,
Nascendo de alguma flor...
Peguei você pela mão
E deixei que o coração
Fizesse a festa do AMOR...
Dança, dança coração!
Que este dia me consagre
Como o mais lindo milagre
De amor, de luz, de esperanças!
Dança, dança, coração,
Pega nós dois pela mão,
Hoje nós somos crianças...
Você – ternura da vida!
Você – meu sol de alegria!
Você me dá a poesia
Do encanto crepuscular...
Você me traz as estrelas
Das noites puras e belas
Você – meu lindo luar!
Amor – essência da vida
Amor – presença infinita
Amor – doçura bendita
Amor – substância vital
Amor – divina energia
Amor – suprema harmonia
Na harmonia universal!
Amor, Amor, grande Amor,
Sol da vida  que ilumina
Toda a beleza divina
Sem tristezas e sem véus...
Amor – explosão de luz!
Chave do Mestre Jesus
Que abre o Reino dos Céus!

***

 

AGRADECIMENTOS

       Pois bem, ao recolher as velas dessa nau literária, resta-me dedicar-me ao que é mais agradável ao meu coração: o agradecimento.

       Antes de tudo, meu carinho especial ao presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, escritor Francisco Pereira Rodrigues, homem brioso, de vasta cultura, que hoje contempla a vida do alto dos seus 91 anos bem vividos.

 

       AUTORIDADES

       Homenageio, com respeito, admiração e alegria as autoridades civis, judiciárias, eclesiásticas, militares e educacionais aqui presentes.

       Para não me prolongar demais, faço minhas as palavras de saudação nominal feitas no início dessa cerimônia.

 

       ACADÊMICOS 

       Um abraço caloroso aos nobres Acadêmicos pela aceitação do meu nome para compartilhar desse seleto grupo literário.

 

       WALTER GALVANI

       Reporto-me aqui, de modo muito especial, com meu caloroso reconhecimento, ao prezado amigo acadêmico Walter Galvani, que apontou o meu nome e buscou os caminhos necessários para que pudesse galgar os degraus da Academia.    

       Meu caro Galvani: venho chegando de Portugal e não deixei de visitar o Monumento aos Descobridores, de onde partiram as naus que demandaram ao Brasil, sob o comando da Nau Capitânia de Pedro Álvares Cabral, tema do seu livro  Nau Capitânia. Parabéns por ter ido às terras d,além-mar buscar as naus do Descobrimento e ancorá-las com êxito na literatura brasileira.

       Suas palavras a meu respeito, nesta solenidade, como paraninfo, mais retratam a generosidade do seu coração do que a minha verdade. Confesso que saboreei a sua fala com grande prazer, guardei os dizeres no melhor espaço do meu coração, e usarei empenho e arte  para corresponder .  Obrigado, amigo.

 

       ACADEMIA SANTA-MARIENSE DE LETRAS

       Não posso deixar de cumprimentar os queridos e queridas colegas da Academia Santa-Mariense de Letras, pela honrosa presença e pelo carinho que estão demonstrando, enfrentando a longa viagem e o frio para estarem comigo nesse momento. Quero dizer que a Academia Santa-Mariense  é, a meu ver, a mais pujante do interior do Estado e tenho certeza que muitos chegarão às honras da Academia Rio-Grandense.

       Permitam-me citar os acadêmicos santa-marienses aqui presentes: Ligia Militz da Costa (Presidente); Máximo José Trevisan, Evandro Caldeira, Humberto Zanatta, João Marcos Adede Y Castro, Aristilda Recchia, Darcy Pereira da Paixão, Dinara Xavier da Paixão e Letícia Raimundi Ferreira, esposa de Antonio Augusto Ferreira.

 

       DEMAIS SANTA-MARIENSES

       Aproveito para agradecer aos demais santa-marienses que vieram prestigiar este ato.

 

       FAMILIARES

       Registro também um agradecimento emocionado aos meus familiares aqui presentes, essas pessoas queridas que sempre me incentivam.

 

       TODOS OS PRESENTES

       A todos os queridos amigos e amigas que aqui vieram, digo que meu coração se debruça no coração de cada um para agradecer emocionado.

 

       IMPRENSA

       Não quero me alongar, mas me sentiria frustrado se não transmitisse um profundo agradecimento aos veículos de comunicação que divulgaram essa solenidade, principalmente os de Santa Maria: TVs RBS, Pampa e TV Santa Maria; Jornais: Diário de Santa Maria e A Razão; De Porto Alegre: Zero Hora e também O Sul. De Itaara: Regional Águas da Serra. As RÁDIOS DE SANTA MARIA: Imembuí, Medianeira, Guaratan, Santa-mariense, Pampa, Antena Um, Itapema e Atlândida; e ainda A MAIS NOVA FM 98.5, de Caxias do Sul e mais oito emissoras da Rede São Francisco, dos Freis Capuchinhos.

 

       ESCRITORES E POETAS

       Por fim, um beijo no coração dos escritores e poetas que me honram com sua presença.  E a todos, sem exceção, um Diploma de Paciência, pela escuta atenciosa e respeitosa às minhas palavras.

       Muito obrigado.