por Waldomiro Manfroi

Na concepção de Paulo Freire, professor não deve se portar como um ente superior que transmite seus conhecimentos.  Ser professor é garimpar, junto aos jovens, caminhos para a construção do conhecimento e a formação de pessoas. Quando não, um provocador, para que os mais jovens aprendam a aprender, a fazer, a conviver e a ser. Assim como se expressava também Claude Bernard (1813 – 1878), fundador da Medicina Experimental e da pesquisa científica na Biologia: Não é preciso ensinar aos jovens; é preciso ensiná-los a aprender, sobretudo é preciso lançar neles os germes da ciência e da procura, e não os frutos”. E de onde surge esta vontade de ser um multiplicar de ideias e um construtor do conhecimento, um condutor de almas e um construtor de livros, como fez Frei Rovílio Costa? Uns dizem que essas aptidões vêm da vocação, outros referem-se à determinantes da genética biológica, como responsáveis pelo futuro das pessoas. Outras, ainda, reforçam a importância das relações determinadas pela genética social, desde o primeiro olhar da mãe, o conforto da família, as relações nas escolas, os professores. E o que faz um homem nascer e crescer com tantas vocações para se inserir num amplo contexto do mundo dos humanos e dos animais, como aconteceu com  Rovílio Costa? 

Na Faculdade de Educação da UFRGS, na Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes de Porto Alegre, Rovílio foi professor multiplicador, difusor e construtor de saberes. Como Vigário Paroquial em Ipê, Antônio Prado, na Paróquia Sagrada Família de Porto Alegre e na Igreja Maronita Nossa Senhora do Líbano de Porto Alegre foi condutor de almas e consolador de pessoas sofridas. Na Penitenciária Estadual do Jacuí e no Presídio Central de Porto Alegre, como coordenador de grupos e organizador de atividades sociais, religiosas e culturais, ele distribuiu confortos e alentou esperanças.

Na vida acadêmica era reconhecido como professor de Linguística da Faculdade de Educação da UFRGS e pesquisador que publicava, na companhia dos professores de Filosofia, Luis Alberto De Boni e de Olívio Manfroi, livros sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul. E em sua vida privada, o que fazia este singular homem de tantos afazeres e fazeres? Viveria num recolhimento físico e espiritual para recompor as energias? Não. Na intimidade do seu lar, Frei Rovílio Costa descansava publicando livros com sua editora. Milhares de livros. Livros que muitas pessoas que o visitavam podiam admirar manusear, ler e viajar com eles. Conhecer sua biblioteca com seus dez mil volumes era um passeio pelo tempo. Sobre seus gatos dizia: “são meus grandes amigos, me dão tanto, em troca de tão pouco.”

Então, era assim que Frei Rovílio Costa vivia. Onde estivesse não parava de garimpar novos livros e de multiplicar amigos. Com entusiasmo de um jovem, durante anos, publicou centenas de autores desconhecidos. E foram milhares. E todos entendiam a mensagem que deixava como subtexto: publicava pelo prazer de dar oportunidade a autores desconhecidos.

Tive o privilégio de ser um desses afortunados principiantes, quando ele publicou meus dois primeiros romances: "Tempo de viver" e "O último voo".

 

Waldomiro Manfroi

Porto Alegre, 26/09/2016