Inicialmente cabe perguntar: por que existem tantos idiomas no mundo? Como surgiram para serem usados por seres vivos que, em última análise, têm os mesmos desejos e necessidades? Não tento desvendar esta charada. Mas, em verdade, outro deveria ser o título deste artigo: Compreensão Universal, mesmo que isso não incluísse um problema bem maior: as pessoas deveriam se entender e não mais inventarem guerras, normalmente por motivos e com finalidades econômicas. Mas eu não me atreveria de abordar tal assunto, pois os que mandam, poderiam rir de mais um acadêmico que hoje fala e que na hora H, é obrigado a se calar.

Idioma ou língua universal? Em todos os países do mundo existem dialetos que dificultam a compreensão do que se diz consideravelmente. Vou contar algo que aconteceu comigo. Em 1998 participei do campeonato mundial dos veteranos do remo (hoje significativamente chamados de masters) em Munich. Nós, os remadores do Grêmio Náutico União, estávamos nos deslocando para a raia do evento e nos perdemos no caminho. Já que domino bem o alemão, os companheiros sugeriram perguntar para um cidadão que por ali caminhava. Ele me informou. Os companheiros perguntaram, mas eu tive de confessar não ter entendido nada.

Mas tudo começa com o fato de existirem diversas escritas que criam uma dificuldade adicional. E aqui vou formular uma proposta aqui que pode parecer esdrúxula: Os chineses é que têm o melhor sistema de escrita. O idioma chinês mandarim do norte nada tem a ver com o chinês do sul, salvo algumas palavras, pelo que sei. Mas a escrita deles, em verdade, composta de ideogramas é entendida por todos. Cada termo ali escrito representa um significado e não é composto por letras. Na realidade, quem lê um texto em português não soletra, mas passando de modo célere, sem, nem se valer dos ensinamentos da leitura dinâmica, por cima das palavras que automaticamente se transformam em ideogramas com alguma prática de leitura. Assim, em linhas gerais o que aqui acontece é o mesmo que acontece na China. Muitos brasileiros se queixam do fato de que não entendem locutores da rádio e televisão portuguesa, mas a palavra escrita em letras latinas entendemos nós, com o compreendem os cidadãos da terra de Camões. Escrever corretamente exige ensino e aprendizagem que nem sempre frutifica. Eu conheço uma poetisa de valor, cujos textos sempre precisavam ser revisados devido aos horripilantes erros de ortografia que cometia. Assim o que proponho não é tão completamente absurdo, pois a palavra casa, seja ela Haus, maison, house etc. sempre será representada em todos os idiomas do mundo pelo mesmo símbolo, pelo mesmo ideograma. Adotemos os ideogramas chineses. Nada de ficarmos assustados, nada de aprender a grafia de dez mil ou mais palavras. Para o uso cotidiano basta aprendermos cerca de mil a dois mil verbetes.

Considero elogiável o trabalho das academias dos países de língua portuguesa de reunir-se de tempos em tempos unificando a ortografia. A propósito, quero apresentar uma pequena sugestão. Pelo que sei todas as palavras iniciadas pela consoante Q ou são seguidas pela vogal U impronunciada ou por outra que são pronunciada, por exemplo, Qatar e qadaritas. E é tudo, s.m.j. Pergunto, podemos suprimir o U? Creio que os digitadores irão agradecer. Leia o presente texto e verifique pessoalmente quantas letras U existem desnecessariamente! Estou aqui apenas revolvendo a história intelectual do Rio Grande do Sul, pois José Joaquim de Campos Leão nascido cento e um anos e sete dias antes de mim, conhecido como Qorpo Santo já propôs o mesmo.

Mas voltemos ao tema: Capacitar a humanidade de melhor se compreender pela palavra falada sempre existia, creio eu. O império romano de grande extensão para os parâmetros de então fez com que as diversas flores do Lácio fossem ser usadas em diversos países da Europa (Romênia, Itália, Espanha, Portugal e França) como únicas línguas oficiais. Devido aos conquistadores são faladas em muitos países da América, África e Oceania. Mas os dialetos aqui interferiram de tal modo que um francês falando, nós não o entendemos. Além do fator dialeto é que apareceu a interferência de outras línguas, por exemplo, o árabe no espanhol e português. Assim um caminho natural de um entendimento, nem falo a nível mundial, mas em um extenso território desapareceu, especialmente após a falência do império romano.

Mas o próprio latim puro tinha uma chance que foi desperdiçada. Duas profissões importantíssimas, os das ciências jurídicas e ciências médicas obrigatoriamente tinham de ter conhecimentos do latim. Na biologia, todas as espécies animais e vegetais ainda são designadas por nomes latinos. Tive conhecimento de um congresso médico, onde se resolveu que o idioma usado seria o latim. Mas ocorreu o lamentável mas! Todos os participantes falavam o latim de modo diferente. Vogais e consoantes eram pronunciadas, conforme habitual no país em que era ensinado. No meu caso particular ocorreram dois eventos. Certa feita cantei o hino internacional dos estudantes Gaudeamos igitur... Aprendi latim na Alemanha e cantei iguitur, pois o G no alemão é pronunciado frente a um E e um I como é pronunciado em português à frente de um A ou de um O. Outro dia eu disse a um conhecido alemão in dubio pro reo, mas conhecendo bem a palavra nacional réu, eu a pronunciei assim. Ele me corrigiu que seria reo (como é pronunciado em Reno, o rio). O que faltou para se chegar ao idioma mundial auxiliar? Uma comissão que regulamentasse em alto nível a pronúncia.

Em verdade, se na antiguidade, a unificação das línguas poderia ser considerado como algo de importância secundária, já a partir do século 19, inicialmente por força do transporte marítimo e depois pelo correio internacionalizado, telégrafo, rádio, televisão, transporte aérea e pela internet o entendimento universal é desejável. O grande historiador suíço Jacob Christoph Burckhardt (1818 a 1897) ali por 1870 – certamente movido pelas imensas conquistas de terras, feitas pela Grã-Bretanha no século 19 – predisse que a língua única no mundo seria o inglês. Certamente estava ele preocupado com os dois grandes escritores contemporâneos suíços de língua alemã Conrad Ferdinand Meyer (1825 a 1898) e Gottfried Keller (1819 a 1890). Assim disse que a boa literatura só se salvaria, caso vertida ao inglês. Bem, Burckhardt se enganou no que tange a línguas faladas em médias e grandes extensões territoriais, mas de outra, a cada ano desaparecem línguas e contristado devemos imaginar que com elas podem eventualmente morrer obras literárias das quais algumas sejam insubstituíveis, caso não vertidas ao inglês.

Referente ao inglês um fato já é notório: Quem viaja e quer entrar em um hotel, é obrigado a conhecer – nem que seja, precariamente – o inglês, caso contrário, fica - como o diz o homem da rua - sem pai e mãe. Toda a comunicação da aviação é feita internacionalmente em inglês. E é lamentável tal ficar cada vez mais acentuado. Do ponto de vista fonético o inglês deixa muito a desejar. É claro que reconhecemos o enorme valor de obras literárias escritas em inglês, especialmente por William Shakespeare. Mas do ponto de vista fonético - o agradável aos nossos ouvidos - como seria construtivo falar o francês (por sua elegância) ou o italiano (por lembrar, mesmo que só falado o bel-canto das óperas de Verdi e Puccini). Mas creio que aqui nada se pode fazer, pois o poder das armas e o poder econômico é que comandam as decisões da humanidade.

Pensou-se em criar línguas auxiliares devidamente planejadas. O primeiro caso do qual tomei conhecimento é o da língua solresol.  Esta língua foi inventada por um professor do conservatório musical de Paris Jean François Sudre (1787 a 1862). Como músico que era, baseou-se na escala musical. É fácil de ser aprendida para quem está versado em música, tocador de algum instrumento musical e pode até ser assoviado. Vou ser sincero aqui consultei a Wikipedia e fiquei sabendo que uma frase que muitos usam em jovens anos seria em solresol: dore milasi domi = eu te amo. Como se vê só existem aqui sete sílabas que poderiam ser abreviadamente ser apresentadas numa máquina de escrever ou num micro por sete letras do alfabeto comum, como, por exemplo, são as notas musicais em certos países: C, D, E, F, G, H e A. A frase acima poderia facilmente ser cantarolada e uma jovem romântica e musical ficaria encantada. Não vou aqui apresentar uma crítica que ocorreu a Sudre certamente por si, sem ouvir este autor: Será que sete sílabas são capazes de formar todas as palavras que existem por aí? No tempo de Sudre provavelmente sim, mas creio não errar, ao dizer que com a evolução tecnológica a partir da data da morte dele em 1862, o número de conceitos a serem expressos em comunicados de todas as espécies, devem talvez ter dobrado. Aqui quero acrescentar uma idéia que ocorreu a mim ali por 1950. Eu estava estudando para técnico em contabilidade e uma das matérias que faziam parte do currículo era taquigrafia ou estenografia. Para quem não o sabe, era uma forma de anotar uma conversa ou um discurso, por exemplo, num parlamento. Ninguém consegue escrever com uma velocidade tal que consiga anotar a fala humana. Assim inventaram diversos sistemas de anotar de modo abreviado o que fora ouvido. Não era uma grafia confiável e nunca era permitido aceitar legalmente a interpretação das anotações de um taquígrafo por um colega seu. Eu tinha enormes dificuldades com a estenografia e inventei de usar a pauta musical para facilitar a anotação, pois a linha usada já revelaria de que letra se trata. Mas hoje os gravadores tornaram obsoleto este meu invento.

Uma segunda tentativa de criar uma língua foi feita pelo padre alemão Johann Martin Schleyer (1831 a 1912). Esta língua se chama Volapük (volapuque em português, significando em sua língua: língua do mundo) e se serviu de palavras extraídas das seis línguas européias mais faladas: inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e russo. Inicialmente tal iniciativa era coroada de pleno êxito. Foram editados jornais e livros em volapuque. Em 16/01/1887 o jornal francês Le Temps disse que se um dia uma língua criada tiver chance de ser universal, então o será o Volapük. Mas repentinamente ocorreu uma retração. Mostrou-se que não era fácil o aprendizado. Propuseram modificações na gramática que o padre Schleyer, criador da língua não aprovou. Creio que além deste incidente os eventos da primeira guerra mundial criaram condições desfavoráveis para que a primeira língua auxiliar criada pelo intelecto humano prosperasse.

A terceira tentativa se deve a Ludwig Lazarus Zamenhof (1859 a 1917) que sendo filho de um judeu russo que viveu em Bialystok (atualmente, Polônia) viveu em meio a uma mescla de línguas. Ele próprio era obrigado a ser poliglota em sua cidade, onde encontrava pessoas que falavam russo, polonês, iídiche e alemão. Ele, médico e historiador, imaginou criar uma língua internacional. Aprendeu francês, latim, grego, hebraico, inglês, italiano, espanhol e lituano. Tomou conhecimento do volapuque e viu seu fracasso, provocado por dificuldades de aprendizado e tentou criar de sua feita, uma gramática fácil, provavelmente baseado na inglesa. E podemos dizer que destas línguas criadas pelo intelecto foi a mais exitosa e reconhecida. Entretanto mesmo assim, não convenceu e não venceu.

A ONU se vale de seis línguas oficialmente: árabe, chinês-mandarim, espanhol, francês, inglês e russo. Dessas línguas o chinês (com as devidas restrições já antes apontadas) é a mais falada, podendo ser o espanhol, a terceira ou quarta força, empatando assim com o inglês. Dois defeitos aponto no inglês que por si só já justificariam não ser ela a língua mundial. (Claro devemos levar em conta o poder econômico e o das armas). Um dos defeitos é a dicção extremamente cacofônica. Outro que aparece no inglês é o fato de a grafia estar totalmente dissociada da fonética. Talvez seja até o caso mais crasso de todos os idiomas, salvo melhor juízo.

Quem seria a pessoa mais poliglota do mundo. É conhecido o caso do cardeal Giuseppe Mezzofanti (1774 a 1849) que teria estudado e traduzido 114 idiomas – claro é que não os falava, que é impossível. Li a respeito dele numa publicação alemã que teria sida capaz de dizer algo a um morador da cidade de Colônia que este não chegou a apreciar muito. Mas, devemos saber mais a respeito de um homem que conheci pessoalmente e que consta no livro Guiness. Trata-se do professor Carlos Amaral Freire, nascido em Don Pedrito (RS) no dia 17 de outubro de 1931 e que conhece nas mesmas condições já citadas 120 idiomas. Mas mesmo assim este verdadeiro gênio o que consegue ele, se o Summer Institute of Linguistics da Universidade de Texas em 1995 apurou existirem 6.703 línguas? O autor destas linhas fala dois idiomas (alemão e português) fluentemente, conseguindo fazer-se entender em outros dois (espanhol e inglês) podendo comunicar-se assim com cerca de 13% da população mundial de cerca de sete bilhões de pessoas, caso as listagens abaixo apresentadas forem corretas. (Uma nota a parte – baseado numa informação lida na Internet: Conheci o professor Freire como funcionário da Petrobrás. Ele teria sido demitido no tempo da ditadura, por saber chinês e russo, sendo por isso considerado SUBVERSIVO)

Por outro lado, defendo a tese de que nenhuma língua deveria desaparecer em detrimento do outra de maior uso. Cada língua produziu uma parcela da cultura universal que devemos respeitar. Até dialetos falados muitas vezes somente em algumas poucas localidades podem nos surpreender por um grande número de obras produzidas em versos e prosa. E aqui entro com a minha proposição: As línguas propostas como o esperanto exigem de nós aulas de aprendizado a que nem todos se sujeitam, quer por falta de tempo ou até por preguiça. Mas pouco a pouco introduzirmos algumas palavras nas línguas modernas. Auto de praça, hoje é taxi. Pois em todos os lugares do mundo s.m.j. é taxi. Nossas hospedarias hoje são chamadas de hotel, assim como o Gasthof na Alemanha hoje também é hotel. Certas palavras estrangeiras tomaram conta de nossa língua, eliminando as correspondentes palavras portuguesas. Isso não é de se desejar. A nossa língua deve manter-se íntegra por razões culturais. A nível de ONU deveria uma comissão de acadêmicos criar alguns termos novos ou extrair de línguas largamente usadas que seriam introduzidas em cada idioma só como sinônimos, cuidando-se acima de tudo que sejam entendidas na linguagem oral. Creio poder dizer que sendo assim criados quinhentos termos de uso geral, entendidas universalmente, estamos dando um enorme passo à frente rumo à compreensão do que é comunicado.

Só a título de curiosidade vou mostrar aqui uma das listas dos idiomas mais falados no mundo. Em verdade, existem diversas listas desencontradas, mas vamos nos limitar a apresentar duas cujos números cabalmente mostram estarmos longe de um indicativo seguro. Isso provavelmente advém do fato que um idioma pode ser a língua oficial de um determinado país, mas em verdade, talvez apenas 80% de sua população o utilize efetivamente. Vamos nos valer de duas listas e ver os números em milhões:

Idioma

Pessoas que o falam (1)

Pessoas o falam (2)

Chinês Mandarim

1.210

885

Hindi  (Indi)

487

182

Espanhol

358

266

Inglês

341

322

Árabe

320

148

Português

250

215

Bengalês

207

189

Russo

164

170

Japonês

127

125

Alemão

110

98

Existem enormes divergências e em outras listagens aparecem números diferentes, como já o dissemos, sendo de se notar que aqui não apareceu o francês, que disputa com o alemão o 10º lugar. Noutra lista aparece o inglês como sendo usado por um bilhão e trezentos milhões de pessoas. No que tange aos que tem noções da língua de Shakespeare, creio poder até indicar que tal número aparentemente extravagante, deve corresponder à verdade. 

Mas cabe uma análise final em tudo que dissemos. Os idiomas são um meio para consecução da comunicação interpessoal. Mas assim como não conseguimos captar uma mensagem radiofônica, se nosso rádio estiver com defeitos, cabe dizer que o ser humano necessita também de uma visita a uma oficina. Em verdade, ficamos impacientes para não dizer neuróticos. Não temos tempo para ler nem para falar com paciência. E quem aqui o diz pode ser considerado o rei da impaciência. Dizem que tal se pode atribuir à dinâmica dos nossos tempos que exige decisões rápidas, quase que dentro do esquema de a perfeição ser inimiga da pressa. Cabe quase a comparação bem chula com a atividade de uma profissional do sexo que insiste com o término de um encontro, por já estar pensando no próximo. Pergunto ao leitor destas linhas, se efetivamente leu tudo ou saltou por cima de palavras que podem ser importantes para a compreensão desta minha mensagem. Um grande amigo meu, homem de muito valor, certa feita chamou atenção que nos meus livros eu estaria me estendendo demais e que o leito de hoje prefere resumos. Ele está certo com a sua consideração. Mas posso eu exclamar mea culpa? Ingenuamente penso que disponho de mensagens consistentes a transmitir. Aceito de bom grado que muitas dessas podem não interessar a um homem ou uma mulher cansada de sua faina diária de especialista em alguma atividade. Mas, de outro lado vejo pessoas se queixarem disto e daquilo e estando eu enviando uma mensagem, que em alguns casos não pode ser simples, verificar continuar ouvindo as queixas e nunca ouvir uma contestação ao que digo (que sou humano e posso estar errado) o que devo pensar?

Mas seria efetivamente a dinâmica dos nossos tempos que deixa as pessoas assoberbadas de compromissos? Acredito mais que seja a ânsia de bem aproveitar as horas de folga. Certo crítico das leis trabalhistas disse que melhor que restringir o número das horas trabalhadas por dia seria aumentar as férias. Quem trabalha, digamos, seis horas por dia - segundo o entendimento de tal crítico – é aproveitado para encontros com amigos, tomando-se cerveja, não propiciando descanso. Não vou comentar, mas num ponto está certa a consideração: Não se descansa e isso tem como conseqüência um ponto que interessa ao presente estudo. Não entendemos um estrangeiro que fala pessimamente a nossa língua, nem lhe falamos pausadamente. Sempre digo que arranho o inglês assim como o espanhol. Vou falar de minhas experiências nesse sentido. Quando cheguei aos Estados Unidos, pedindo uma informação, fui vítima da seguinte resposta ultra-sônica: qwert yuiopa sdfghj klçzxc vbnm, have a nice day! Pedindo repetição, nada mudou do que me foi dito. Na Grã-Bretanha nada entendi do que me fora dito em Manchester, mas em Londres me comuniquei bem, e melhor acontecendo depois na Escócia. Até ocorreu um episódio muito característico em Philadelphia nos Estados Unidos. Certo dia a minha esposa e eu necessitávamos de uma informação e nos dirigimos a uma senhora. Ocorreu até um diálogo mais extenso e eu disse certa hora para a patroa que seria a primeira americana que eu estaria entendendo. Pouco depois ela nos confessou ser escocesa e, não, americana. Ao falar espanhol, constatei entender melhor o que me foi dito no México que o pelos hermanos na Argentina, apesar da proximidade deste país.

E o problema ao invés de ficar atenuado assumiu crescentes dificuldades. Vendo eu filmes de Hollywood da década de 1940, entendo quase todos os diálogos, o mesmo não acontecendo em relação aos filmes mais recentes. Dizem que o ex-presidente John Kennedy seria o responsável pela enorme produção de palavras por minuto ao se comunicar com os seus eleitores. Tal aparece igualmente em noticiários, onde se comunica o quanto possível em poucos minutos, para depois se estender o espaço destinado à publicidade.

Mas por que digo isso? O que adianta criarmos um idioma mundial ou estabelecermos um grupo de sinônimos, se não entendemos o que nos é dito? Aliás, a necessidade de aulas de conversação se baseia no fato de ser relativamente fácil o aprendizado da língua que se fala, mas difícil ou até quase impossível aprender a compreensão do que nos é dito. Certo dia, ao expor na Academia Rio-Grandense de Letras a idéia da criação de sinônimos, um confrade a quem muito aprecio, chamou atenção que os alemães ao falar de hotéis não dizem ôtel como nós no Brasil, mas dizem quase que jotel (a letra J, como no castelhano), nunca se dispensando o H aspirado. Certo o que foi dito e que aponta para a dificuldade. O sinônimo deveria ter então grafia diferente em cada língua? Taxi assim escrito em inglês, seria pronunciado Téxi? Mas ao ler um jornal ou um mudo nos apresentar uma palavra escrita, seria não compreendido?

O problema existe. Poder-se-ia argumentar que são poucas as pessoas que viajam por lazer ou a serviço mundo afora e que acabam se comunicando bem ou mal, mas se entendendo, a ponto de não surgirem tragédias. Mas temos, por outro lado que nos lembrar das pessoas que falam idiomas que são usados por pouca gente e que necessariamente se vêem obrigadas a recorrer a livros técnicos – ou outros - em línguas estrangeiras e a todo o momento falarem um outro idioma. Nessas condições o meio de comunicação próprio por eles usado, estaria em vias de extinção o que já foi comentado, ser indesejável. E podemos indicar uma regra: Na zona rural, normalmente persiste a população no uso de idiomas raros, como o reto-romanche – uma das quatro línguas oficiais da Suíça, falado por apenas quarenta mil pessoas – mas nas grandes cidades fala-se o idioma da maioria da população.

Mas mesmo existindo todos estes percalços, insistimos na proposta dos sinônimos, pois a pronúncia local de aproximadamente quinhentos termos é mais fácil que o de uma língua inteira.