Márcia Ivana de Lima e Silva *
 
 
Iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova e naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. Tal obra exige não só a compreensão pública, mas ainda e principalmente a vossa constância. A Academia Francesa, pela qual esta se modelou, sobrevive aos acontecimentos de toda a casta, às escolas literárias e às transformações civis. A vossa há de querer ter as mesmas feições de estabilidade e progresso. [i]
 
 
A tarefa de construir uma história é hoje bastante árdua, pois o pesquisador tem consciência da particularidade e da complexidade de seu trabalho. Há que se rastrear um sem número de informações, além de se lidar com as noções contemporâneas de História, vista num continuum, o que equivale à possibilidade de eterna revisão, e de discurso histórico, que revela o posicionamento do próprio historiador, impregnado este de presente e de passado. Jeanne Marie Gagnebin, ao prefaciar a obra de Walter Benjamin, afirma:
 
Se relemos as teses “Sobre o conceito de história” à luz destas poucas observações, poderemos observar quanto o método do historiador “materialista”, de acordo com Benjamin, deve à estética proustiana. A mesma preocupação de salvar o passado no presente graças à percepção de uma semelhança que os transforma os dois: transforma o passado porque este assume uma forma nova, que poderia ter desaparecido no esquecimento; transforma o presente porque este se revela como sendo a realização possível dessa promessa anterior, que poderia ter-se perdido para sempre, que ainda pode se perder se não a descobrirmos, inscrita nas linhas do atual." [ii]
 
Sendo assim, a promessa de uma história que dê conta da totalidade e que seja neutra já não é mais possível, até porque, “A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de "agoras" [iii], como pondera Benjamin. Nesse sentido, é tarefa de todo historiador, hoje, olhar a seu redor e perceber que procedimentos metodológicos existem, capazes de auxiliar no trabalho de reconstituição e/ou mapeamento das obras literárias precedentes e contemporâneas, de modo a pensar um quadro minimamente referencial. Para José Luís Jobim,
 
Cada época tem seu quadro de referência para identificar a literatura, tem suas normas estéticas, a partir das quais efetua julgamentos. Em outras palavras, cada época tem suas convenções, valores, visões do mundo, formando um certo universo, cujos elementos interdependentes mantêm entre si relações associativas e funcionais, em constante processo. [iv]
 
É nesta perspectiva que José Carlos Rolhano Laitano nos brinda com a História da Academia Rio-Grandense de Letras (1901 – 2016) e Parthenon Litterario (1868-1885), fruto de excelente pesquisa tanto na documentação da Academia quanto na bibliografia de apoio, bem como no estabelecimento da contextualização histórica dos eventos literários.
 
A história da Academia confunde-se um pouco com a história do Rio Grande do Sul, principalmente com sua história intelectual, na medida em que a publicação de grandes obras literárias coincide com momentos históricos relevantes. Como nosso estado não tem tradição filosófica (tampouco encontrada no Brasil), os escritores e intelectuais gaúchos acabam por cumprir o papel de pensadores da realidade brasileira através de suas produções literárias. Ciente desta característica, Laitano preocupa-se em apresentar o panorama dos principais acontecimentos no mundo, contextualizando, assim, os passos dados pelos autores e por nossas instituições.
 
O percurso histórico abrangente nos dá a dimensão da atuação da Academia e do Parthenon, que foram criados com propósitos bastante altivos e críticos, mas revelaram, ao longo do tempo, uma atuação tímida e pouco contestatória. Como observa o próprio Laitano,
 
A razão maior de existir de uma Academia de Letras – e o que a diferencia de grêmios literários e associações de escritores – é exercer a curadoria da língua nacional, dos dialetos regionais, das alterações gramaticais, do pensar a cultura como fenômeno de um povo, e o faz ao par dos organismos governamentais, a eles oferecendo suporte teórico. Também o cuidar das obras de seus membros, no ramo da literatura, da história, da filosofia; mas não só e nem principalmente. E esse papel pouco foi cumprido pelas academias. Não por carência de estudiosos nessas matérias, mas por falta de direcionamento como entidade. A Academia de Letras do RGS não foi diferente. 
 
O mesmo Benjamin esclarece que intelectual é "um tipo definido por suas opiniões, convicções e disposições" [v], cabendo ao escritor a tarefa de tornar-se um intelectual em seu tempo. Os grandes escritores são, antes de tudo, intelectuais nesta acepção do termo: tipos com convicções, que se dispõem a defender suas opiniões. Nesse sentido, exercem uma função em sociedade não apenas em termos literários, como também na dimensão de seu empenho intelectual. Na sequência do fragmento citado na epígrafe, Machado de Assis declara
 
Já o batismo das suas cadeiras com os nomes preclaros e saudosos da ficção, da lírica, da crítica e da eloquência nacionais é indício de que a tradição é o seu primeiro voto. Cabe-vos fazer com que ele perdure. Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam também aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira. [vi]
 
Este livro é, ao mesmo tempo, um elogio à tradição e ao legado dos escritores gaúchos, como quer Machado, e um resgate da noção de intelectual, proposta por Benjamin. Quer ser, igualmente, um impulso para que a Academia torne-se mais participativa das questões intelectuais de nosso estado. Laitano cumpre com maestria um trabalho que se fazia necessário, brindando-nos com uma História que é não apenas da Academia e do Parthenon, mas é de todos nós.
 
* Professora do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul 
 
 

[i] Fragmento do discurso de Machado de Assis para a sessão de abertura da Academia Brasileira de Letras, em 20.jul.1897.
[ii] GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Walter Benjamin ou a história aberta”. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 5.ed. Trad. Sergio Paulo Rouanet.  São Paulo: Brasiliense, 1993. (Obras Escolhidas, 1) p.16.
[iii] BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. 5.ed. Trad. Sergio Paulo Rouanet.  São Paulo: Brasiliense, 1993. (Obras Escolhidas, 1) p.229
[iv] JOBIM, José Luis. “História da Literatura”. In: JOBIM, José Luis (org). Palavras da crítica: Tendências e Conceitos no Estudo da Literatura. Rio de Janeiro: Imago, 1992. p.129.
[v] BENJAMIN, Walter. “O autor como produtor”. In: ____. Obras escolhidas I. 5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1993. p.127.
[vi] Fragmento do discurso de Machado de Assis para a sessão de abertura da Academia Brasileira de Letras, em 20.jul.1897. In: MACHADO DE ASSIS. Obra completa. Vol. III. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. p.926.