DEPOIMENTO DE ANTONIO ALBERTI
no painel Rovílio Costa, um homem à frente do seu tempo
Feira do Livro de POA – 2016 – evento da Academia Rio-Grandense de Letras.
 
 
 
(Antonio Alberti é italiano, residente em Porto Alegre, empresário no ramo do comércio exterior, tradutor eventual e, mais que tudo, amigo do frei Rovílio Costa.)
 
Em 1985 o governo italiano instituiu o COEMIT – Comitê de Emigrantes Italianos com o objetivo de manter contato com os emigrantes e familiares, desenvolver o ensino da língua e cultura italiana e estabelecer um elo com as autoridades brasileiras.
Fui eleito presidente da entidade e, nessa função, apresentaram-me um frade capuchinho que, modo estranho, vestia roupa comum e não a batina, como estávamos acostumados a ver na Itália.
Conhecê-lo foi uma sorte para mim. O que ele sabia sobre imigração italiana em nosso Estado era inimaginável! Editou centenas de livros sobre famílias e sobre cidades. Passei a frequentar a sua editora, a Est Editora, e a conviver com ele na sala onde escrevia seus textos em meio a montanhas de livros.
Em 1986 fui encarregado de formar uma missão para participar do I Encontro Mundial Sobre Emigração Italiana, em Roma, e o primeiro nome a quem convidei foi frei Rovílio. E ele impressionou a todos pela sua humildade e erudição. No primeiro dia do congresso, o Ministro das Relações Exteriores, Giulio Andreotti, ofereceu como presente uma maleta de couro com marca famosa. Um dia depois o ministro perguntou-me por que Rovílio não usava a maleta e mantinha uma sacola velha de plástico trançado com a figura de um prédio antigo – era a foto do Mercado Público de Porto Alegre.
Assim era Rovílio.
Frei Rovílio, enquanto intelectual, editou cerca de 2.600 títulos e mais de 3 mil autores e ele próprio escreveu dezenas de títulos. Granjeou dezenas de distinções literárias, montou dezenas de bibliotecas na região italiana, principalmente; foi condecorado como Ufficiale dell’Ordine al mérito della Repubblica Italiana; Patrono da 51ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2005; trabalhou muito pela regulamentação da nova língua brasileira, o Talian, falado na colônia italiana e por isso, em 2005, recebeu o Merito Talian, na cidade de Serafina Correa.
No texto de apresentação ao livro Etnias e Carisma, coletânea em que fui o organizador e participaram 97 autores, dentre os quais os aqui presentes Vânia Herédia e Moacyr Flores, escrevi o seguinte parágrafo:
 
Como pesquisador e autor, frei Rovílio é aberto e permeável a sugestões, novas ideais, métodos alternativos, piramidando sobre os tradicionais. O lançamento dos três volumes de Assim vivem os italianos, por exemplo, em 1982, foi quase um escândalo metodológico; hoje a metodologia da história oral tem muitos seguidores, institucionais e não-institucionais, e se consolida.
 
Para não me alongar neste depoimento, desejo trazer a palavra de Luis Alberto De Boni, grande amigo e parceiro de Rovílio nas lides literárias, que está na Itália e por tal motivo não comparece a esta homenagem, com muito pesar.
 No livro As feiras do frei, organizado por Marilene Dorneles, que hoje norteia a Est Editora, De Boni, a certa altura, escreveu:
 
Por minha indicação Rovílio foi ao depósito da Editora São Miguel, em Caxias do Sul, e lá encontrou 3 mil exemplares da obra Nanetto Pipetta, escrito em Talian, porque o livro deixara de circular por ocasião da última guerra. Ele adquiriu os exemplares, solicitou-me uma apresentação e modificou o primeiro caderno e a capa, e em poucas semanas lá estava de volta o Nanetto, ressuscitado e eternizado. Houve algumas críticas dizendo que não se devia publicar uma obra em dialeto, num momento daqueles, mas as críticas acabaram por aí e hoje Nanetto Pipetta é lido no mundo inteiro.
 
Encerrando, lembro as palavras de Rovílio no seu discurso de encerramento da feira, em 2005:
 
Mais importante que estudar, é ler. No ler os outros, lemos a nós mesmos. E, hoje, quando as pessoas se distanciam de pessoas; pais esquecem os filhos e os filhos, os pais, mais importante que estudar e ler, é escrever. Para se defender do mundo instituído e para defender o próprio mundo percebido, o ser humano tem dois caminhos – ou ser um clone do instituído, ou tornar-se uma alternativa-pessoa capaz de expressar o seu sentir, o seu pensar e o seu propor – três verbos que referem a identidade como eterna construção que jamais será empobrecida por aquilo que chamamos conquista.
O homem se conquista ao nunca ser conquistado.
 
Muito obrigado.