O Novo Cristo
 
Leva tua cruz obstinadamente
Seja ela signo e bandeira de luta,
Certamente sangrarás pelos caminhos,
Mas os rastros de sangue sejam marcas 
De um valoroso e constante labutar.
 
E quando descansares o madeiro,
Sem mais força do peso sustentar,
É certo que ouvirás da estranha turba 
O grito: é manha! A ferros! Crucifiquem-no!
 
Eis a humanidade a que chegou,
Nos modernos tempos que vivemos:
Pregar honestidade e honradez
É expor-se à sanha dos corruptos, 
Abrir feridas e a própria sepultura.
 
Mas seja tua cruz – bandeira e signo –
O símbolo maior do chamamento,
A poderosa Cruzada dos honestos,
Em novo ciclo e construção de mentes,
Nem que dos cravos o sangue se derrame.
 
Praia do Barco – Capão da Canoa/RS, 13/01/2010
 
 
 
Amada Poesia
 
Para habitar um universo poético,
basta estar impregnado de substância lírica...
basta amar 
(Patrícia Bins)
 
Quando a noite baixa
O silêncio se petrifica.
Nas pedras do silêncio 
Mora uma saudade imensa
Embarco nela.
A mente é uma corrente
Em busca do teu mundo
Radiante de luz e amor.
 
Às vezes dormes,
Respeito teu dormir,
Mas se não te acordas
Vou morrendo
Aos poucos...
Aos poucos.
 
Porto Alegre RS, 01/10/1998
 
 
 
 
A Ira da Natureza
 
Um pássaro cantou
um canto santo, na floresta virgem.
Depois vieram os madeireiros,
com serra na mão...
os pássaros atônitos fugiram,
labaredas subiram
e a paz da selva evaporou.
 
A natureza assim contrariada,
das cinzas fez nascer urtigas,
espinheiros, cobras venenosas
e a víbora de mil pernas
trouxe a morte.
 
Explodiu no coração da selva
a ira e nada mais brotou.
 
Porto Alegre/RS, 30/12/2008 – 30/05/2011
 
 
 
 
Breusa
 
Nunca direi de ti, 
o que de fato és,
diáfana mulher, 
sublime estátua.
 
Irás às estrelas
e eu, aqui – pesada carne,
aprisiono o espírito,
enquanto puxa-me
a corda – gravidade 
aos páramos do indizível.
 
Um dia, quem sabe,
na grande obra,
corolário dos sonhos,
possa pegar a tua mão
e beijá-la
em real genuflexão.
 
Tarde demais?
Talvez,
seguiremos juntos
os caminhos da infinitude.
 
Porto Alegre/RS, 19/06/2011
 
 
 
 
Ao Outro
 
O bem que te faço
é dar-te liberdade.
Quem impõe ao outro
sua individualidade,
contraria a natureza,
aprisiona o livre arbítrio,
parte a lei natural,
deixa na solitude,
o ser agrilhoado
à esfera mínima dos sonhos.
 
A grandeza diz:
- Dá-lhe asas para voar.
No voo, a experiência 
mostra os caminhos.
 
Porto Alegre, 19/06/2011
 
 
 
 
Divina Chuva
 
O vento visita os ramos acesos,
a brisa anuncia luminosos pingos,
risca o céu, o raio e o trovão,
a natureza toda se prepara,
Abrem-se as comportas do imenso céu,
O sertanejo de mãos postas, joelhos na terra,
agradece a vida, manto líquido
e os ramos riem,
nas cabeceiras roncam os rios,
tudo se renova qual uma criança,
as flores se abrem espargindo néctar.
 
Porto Alegre/RS, 12/05/2009