Era uma luz tão antiga quanto o quarto dia. Por isso, ela sabia de verdades cabais, mas não tantas quanto a luz abstrata, a do primeiro dia, pois essa não pertencia a estrelas ou a qualquer outra mancha de universo – era coisa de Deus, e apenas Ele a enxergava porque a segurava nas mãos. E era com a fúria dos milênios que a luz sufocava a tarde, coriscando metais e espelhos d’água, incandescendo as pedras do calçamento, povoando de estalidos secos a vegetação que, pouco a pouco, ia se amarelando.

O verão tinha a mesma sede do cachorro vadio que Ícaro via passar do outro lado da rua, saltitando a magreza sobre o ladrilho quente até a sombra mais próxima, logo ali, na soleira do armazém, de onde logo acabaria enxotado pela raiva do balconista. De resto, nenhum movimento; tudo se amortecia sob o peso do sol, e Ícaro compreendeu que a tarde esperava junto com ele.  

Deus creavit coelum et terram intra sex dies. Primo die, fecit lucem. Secundo die, fecit firmamentum, quod vocavit coelum. A lição de latim demandava tradução. Ícaro molhou a ponta da caneta no tinteiro e deteve-a no ar por um momento: era bom quando as frases vinham assim, em ordem direta, e por isso ele gostava da seção de história sagrada do livro; depois, quando a seleta passava aos textos de Cornélio, Ovídio e Cícero, o vernáculo se enredava frente aos sortilégios da poesia, e desenovelar as palavras tornava-se um desafio, não tão difícil quanto esquadrinhar o espírito para ordenar sentimentos e, enfim, traduzi-los nas frases de uma carta. Ali, sentado à escrivaninha do quarto, junto à janela, Ícaro podia contemplar a extensão completa da rua e, olhando para a esquerda, no fim do corredor, via o relógio de carrilhão a marcar seu compasso no silêncio morno da sala. A hora se aproximava.

Tertio die, coegit aquas in unum locum, et eduxit e terra plantas et arbores. A tarefa seguia enchendo os minutos com alguma ordem: nominativo, acusativo, genitivo, ablativo, cada modo a seu tempo e em seu lugar. Assim, Ícaro enganava o caos ou, pelo menos, forçava-o a fervilhar em uma região escondida de sua mente, longe da fonte das ideias, porque de nada adiantava atormentar-se quando a sorte já havia sido lançada no dia anterior, com a carta escondida dentro do livro de César. Lá fora, as ramagens mais altas começavam a deitar sombras na calçada, preparando o caminho para o colega, a mesma trajetória de sempre – sair do sobrado na praça, contornar o chafariz, subir a rua em cinquenta ou sessenta passos, desaparecer na volta da esquina, a poucos metros da entrada do clube –, mas que agora prometia iluminar-se com o sobressalto de uma resposta.

Quarto die, fecit solem et lunam et stellas.Nasceria do inesperado uma nova constelação caso César parasse um instante e lançasse um olhar, ainda que furtivo, até a janela – era esse o sinal pedido. Talvez até sorrisse – um sorriso acanhado, mas, mesmo assim, um sorriso de redenção, que daria a Ícaro a certeza de que tocar o céu era possível. Sem medo de queimar os dedos. Quem sabe aí repousava o mistério: saber que o fogo que dói e queima não está no alto, onde habitam as emoções, mas ardendo entre as coisas do mundo, rente ao chão, no calor que sangra a matéria morta e imobiliza as pessoas nos dias de janeiro.

Quinto dia, fecit aves quae voliant in aere, et pisces qui natant in aquis. Sexto die, fecit omnia animantia, postremo hominem, et quievit die septimo. Quase dezesseis horas, e uma revoada de pássaros cruzou em borrões o horizonte ondulado pelo ar rarefeito, revolto de tão aquecido, e as asas deixaram um rastro dançando no azul. Ícaro largou a caneta sobre o caderno: César se aproximava. Despontou no começo da rua, os músculos das pernas contraindo-se no esforço de vencer a ladeira, a cor dos braços contrastando vivamente com a camisa branca de mangas curtas; a tira da sacola em que levava as raquetes de tênis atravessava-lhe o peito, afundando-se sobre o esterno e colando o tecido da roupa ao suor da pele; o cabelo brilhava em negros cachos. A cada passo, Ícaro estremecia; precisava saber se confessara em vão o que antes jamais tivera coragem de confidenciar nem a si mesmo. Então, poderia descansar.         

Deus finxit corpus hominis e limo terrae; dedit illi animam viventem; fecit illum ad similitudinem suam.Quando César estava a poucos metros da janela, Ícaro baixou os olhos para o livro, por reflexo, e leu e última frase da lição. Era o tempo de respirar fundo uma, duas vezes, e então erguer a cabeça para que sua alma recebesse a sentença. Olhou para fora e viu o colega passar sem qualquer gesto, em caminhar acelerado, o perfil cheio de beleza recortando-se, impassível, contra a claridade que explodia sobre o mundo e que derretia os sonhos e os desejos e os amores, para fazer despencar do firmamento todo aquele que era semelhante a Deus, mas que não era Deus, direto ao lodo da terra, se lodo houvesse no lugar daquela areia dura, repleta das cicatrizes recortadas pelo açoite do sol. 

Ícaro quis baixar de novo a cabeça, mas a vergonha crua petrificava. Sentia calor e sentia frio ao mesmo tempo. César, tremulando feito miragem, sumiu na esquina, e o dono da venda enfim apareceu para expulsar o cão.