(Conto originalmente publicado em tradução alemã no volume "Wirsind Bereit - Junge Prosa aus Brasilien", coletânea organizada pela editora Verlag em 2013, por ocasião da Feira do Livro de Frankfurt, reunindo textos dos mais promissores novos escritores de nacionalidade brasileira.)

 

Fechou a porta para os ruídos da cozinha com a força trêmula da mão esquerda porque, na direita, tinha esse modo instável de segurar o bolo sem que ele caísse. Três degraus até a calçada, dez passos até o primeiro dobrar de esquina, mais uns tantos até o pórtico, e nenhuma distância diminuía a robustez dos cheiros tristes do lar – os repolhos fumegantes reaquecidos, o vapor doce do forno recém-apagado, as ervas jogadas nos cantos para espantar insetos, as fraldas úmidas do irmão menor –, e nenhum sol de tarde eclodindo apagava o sono da noite mal dormida ou a fome insaciada pelo almoço ralo.

Deixara a mãe com seus inesgotáveis afazeres. O dia ainda guardava cor de chumbo quando ela iniciara os barulhos que preludiavam as manhãs: crepitar de lenha, verter de água, o assoviar da chaleira velha junto aos pigarros do pai, que, no quarto, rezava as primeiras bênçãos. Naquela hora, enrolado na manta, ainda deitado em sua cama, porém atento ao que se passava no resto da casa, o menino já desistira de repousar e sentia as olheiras afundando-se no cavo das órbitas. Escutou a voz do pai, mais alta, livre dos sussurros religiosos, dirigindo-se à mãe para retomar o assunto que lhes havia exasperado tarde da noite, pouco antes da hora de recolher; no entanto, não mais discutiriam, nenhuma palavra aguilhoaria a paz escassa e pobre que era tudo o que tinham e, menos ainda, faria chorar com intuições de asperezas o pequeno irmão, quase um bebê: tudo porque o pai falava em tom de trégua, carregando certo laivo de esperança no fio mudo das frases. Ainda me parece loucura gastar as economias em tanto mel, coisa tão cara, ele dizia, mas quero acreditar que fizeste algo bom e que HaShem, vendo o teu trabalho, irá nos devolver em dobro. A mãe assegurava mais do que o dobro, bem mais; as encomendas de bolo eram certas, porque, apesar da desconfiança das pessoas na cidade, sempre havia quem ajudasse os judeus, e ela precisava aviar de pronto um pedido para a casa do tabelião. Um bom homem, suspirou o pai; lástima que a esposa mal disfarce a soberba de enxergar o povo do shtetl como quem enxergasse ratos. E então o menino, que vigiava o respirar do irmão adormecido no berço ao lado, torcendo para que o sono não lhe fugisse, porque no sono não havia fome e nem lágrimas, ouviu a mãe falar sem qualquer emoção: pois a ela será entregue o bolo hoje à tarde; foi ela quem o pediu. O menino crispou os dedos nas franjas do cobertor e estremeceu.   

Chegando ao umbral que era cisão entre o bairro e o abraço frio daquela cidade quase estranha ao seu redor, o menino recordou o abalo sentido ao adivinhar, logo cedo, que caberia a ele a entrega. Nas primeiras vezes, ainda muito novo, levado pelo braço, ia junto com a mãe deixar as roupas costuradas na residência do tabelião – primeiro eram as roupas, depois vieram as encomendas de assados e compotas, os pequenos serviços que mantinham a casa viva em meio às hostilidades. Ele ainda não tinha, naqueles tempos, pele e vida suficientes para reconhecer e sentir por inteiro o que lhe perturbava agora, quase chegando aos quinze, este ímpeto encharcado de febre que deliquescia os sonhos; contudo, diante daquela mulher que os enxergava como ratos, uma dama feita em seus mármores e mistérios, já havia, desde sempre, um mutismo, um medo, uma convulsão. Encantavam-no as mãos brancas, riscadas de veias sem relevo, o perfil esguio de profetisa, a cor violácea dos olhos e, sobretudo, o perfume de sabões de toucador – tão diferente da mãe, amerceada nos trajes pretos de sua modéstia. Depois de alguns anos, entendidos o caminho, as obrigações e até alguns perigos, ele ia sozinho ao sobrado, as pernas afortunadas, o peito dilatando-se à respiração do mundo, porque sabia que iria vê-la. Agora, levava-lhe um bolo que espalhava aromas de viço e de antiga felicidade na brisa da tarde, e, no instante, súbito, doeu-lhe no estômago o recender das coisas boas mas reservadas, o mel, a farinha, o açúcar, as coisas que há muito não podia ter pois delas viriam o sustento de todos, a concórdia entre os pais, o sono quieto do irmão.

Ainda observava o pequeno em seus sonhos quando percebera a claridade a invadir frestas – era o aviso de que o pai sairia, deixando a casa com seus cansaços e seu ranger de tábuas. Durante toda a semana, exceto no shabat, o pai cumpria a rotina de percorrer as ruas do shtetl e também as da cidade para oferecer seus préstimos de latoeiro – consertar panelas, funis, regadores, afiar facas, navalhas, tesouras; porém, era cada vez mais escasso o serviço: naqueles dias, quando a guerra ameaçava, as pessoas abandonavam tais cuidados, os ânimos pareciam desaguçar-se na mesma proporção das lâminas esquecidas em gavetas e cepos, os buracos e amassaduras nos utensílios nem chegavam a incomodar quando os espíritos já iam alquebrados. Entrando na cozinha, o menino achara a mãe nos preparos de uma alquimia que há muito não se presenciava ali, desde que ele mal sabia rezar, época em que a mulher do tabelião era desconhecida, nem sequer um nome. Estavam dispostos os ingredientes sobre a mesa, milagrosamente, em uma desordem de elementos que pedem fusão: o açúcar e a farinha quase juntos, em sacos, na alvura de esperar peneiras; os quatro ovos de casca marrom, insinuando um quadrilátero; na ponta, a garrafa de óleo, amarelado feito seiva; dispersas, as tigelas de macis, casca de limão, canela e nozes picadas – tudo em guarnição ao vidro que, bem no centro, coroado pela claridade da manhã, resguardava o mel, ouro líquido. O pote em que o mel descansava e se fazia a cada dia mais doce era de uma transparência de colmeia despida, uma transparência comovente e plena de âmbar que, abrindo-se ao sol, fazia da luz ainda mais luz – substância. A mãe sorriu, serviu-lhe o café, a metade de um pão seco deixado pelo pai e, afagando-lhe os cabelos desalinhados, convidou a assisti-la na preparação do honek leikech. Ia sim: duas mãos e um par de olhos espantados com o reviver daquele rito infante. Pensaria nela, a dona. E o tempo em esgarço de novelo, dilatado.  

O mundo era o caminho entre os portões do bairro sitiado e casa do tabelião. Um mundo estreito, curto, sufocado, em que habitavam uns seres de aparência macilenta e outros que intimidavam só pelo jeito de andar. Eram os soldados. Passou por dois deles ao atravessar o portão, carregando o bolo, e miradas vigilantes pesaram-lhe na nuca – um peso de saber-se observado e alvejado por pensamentos sigilosos mas de indisfarçado desprezo. Talvez, no cerne, fosse mais; talvez fosse condenação. Com o mesmo tipo de olhares, impregnados com os mesmos sentimentos, era-lhe algoz a mulher do tabelião, mas uma torturadora a quem não podia deixar de querer. Ela sempre o recebia com mais silêncios do que palavras, com a altivez de quem se sabia diante de um judeuzinho assustado, um rapazola nitidamente envergonhado de sua magreza e seus remendos, acuado pelas porcelanas, pelas tapeçarias, pelos cristais, mas que, mesmo assim, revolvia centelhas nas pupilas caninas. O menino, avançando pela cidade, cismava: talvez ela se adivinhasse deusa, por isso mordia os lábios vivos de carne ou então deixava escapar um palmo a mais de braço ou uma nesga da perna na inconstância das dobras do seu robe de seda. Quem sabe ele poderia contemplar-lhe os pulsos quando ela se inclinasse para pegar a travessa do leikech, aqueles pulsos roliços que emanavam reminiscências de flores e bigarade. Por esse presente, levava-lhe o bolo com todo o cuidado, um zelo que não teria nem se fosse alimento para saciar a sua própria urgência de comer; por esse momento, caminhava nas ruas da cidade quase estranha, estremecendo em sua frieza, engolindo a acidez da fome e a crueza do que lhe batia o coração.

O transubstanciar das essencialidades tinha início com o romper das cascas dos ovos – um estalo redondo, seco – e com a separação das gemas para que fossem então misturadas ao açúcar, às especiarias e, depois, à farinha polvilhada sem pressa, com vagar de neve no outono. A umidade precisa nascia do espírito de vinho derramando-se com o óleo, os dois fios de líquido se entrelaçando em dança tom de cobre e morrendo na massa bruta para fazê-la crescer; era o princípio aguardando substância: o néctar reconstruído na cera dos favos, sua fluidez preguiçosa. Por fim, deitar as claras batidas, feitas em espuma consistente, libertas de qualquer viscosidade adversa aos apetites. As nozes, aos pedaços, mais uma delicadeza. Assim foram ele e a mãe, unidos, aventurando-se na receita que quase esquecida seria se não fosse maior que o tempo, se não fosse ela própria memória. Quando pousou as mãos ao redor do pote de mel e sentiu que havia calor, quando inclinou o bojo para deixar escorrer a doçura imaginada, pensou nos terríveis olhos violeta, na cintura sem excesso, e foi parar ao meio, no busto, intuindo os relevos do colo como se tocasse. Por não poder fazê-lo, preparava o leikech; por não poder levar os carinhos guardados, levaria o leikech; colocava-se inteiro no leikech por não poder mais – e talvez para adoçar, com algo de amor, o apelo da realidade, que insistia em reafirmar o destino tíbio do bolo de mel: a indiferença de moedas.

Precisavam de dinheiro, por isso estava ali, a caminho da casa do tabelião, sentindo o odor convidativo do bolo, um certo queimor maltratando as vísceras. Mas ele persistia, equilibrando a bandeja. Até o sobrado, construção de caprichos cinzentos, granito, grades de ferro. Ao toque da sineta recém-polida – porque brilhava como não brilhava na semana antes –, veio recebê-lo a criada, que logo o conduziu à sala de jantar. E estava ali a dona, sentada à cabeceira da mesa; uma xícara de chá, manchas esparsas na toalha testemunhando o almoço recente. A posição do corpo, sinuosa, fazia-a ainda mais bela, as pernas colocadas de lado, a coluna arqueada, uma displicência tão límpida quanto a luminosidade filtrada pelos vitrais e que, fragmentada, prismática, desassossegava os móveis de cerejeira, os lustres, as colunas salomônicas, o grande relógio de pêndulo, o samovar de prata. Sem olhar para o arco de entrada da sala, sob o qual o menino se afligia na foz das expectativas, bebendo a imagem candente da mulher, ela disse: podes deixar o bolo aqui ao lado, sobre a mesa. Ele foi lento, querendo estancar os segundos que o relógio teimava em marcar no mesmo ritmo como se pudesse roubar algum visco do mel que não provara para esparramá-lo nas horas. Quando pôs a travessa em um canto, bem perto dos braços venerados, agradeceu em silêncio por estar ali e por ter trazido o leikech assim, inteiro, desacidentado, como a sua paixão.

No forno, o bolo ganhara cor e tamanho. Enquanto isso, o almoço: a sopa de repolhos que se diluía há quase semana, incapaz de debelar a fome, mas culpada por transformá-la em náusea, que era a fome da fome, a avidez devorando a si mesma. Apesar disso, o menino tomara a porção que lhe fora servida, até a última colherada, agradecendo à mãe e querendo, com a força de todas as náuseas, que o bolo ficasse bom, que o dinheiro viesse, que o lar fosse de novo como era antes de o cotidiano se despir da meninice e o sopro de guerra pairar na sombra dos muros do shtetl. O irmão ainda dormia quando o leikech foi tirado do forno, mas era preciso tocar a vida, assim dissera a mãe naquele momento, as luvas de tecido grosso suportando a fôrma; que se esperasse um pouco, apenas o suficiente para amornar, mas que ele, o filho, fosse logo fazer a entrega enquanto ela cuidava do pequeno.

E ele agora estava naquela sala de uma riqueza tão alheia que chegava a doer, esperando que a mulher do tabelião lhe desse um olhar, um vestígio de pele oculta, qualquer coisa que o fizesse experimentar uma vertigem que não a da fome. E ela, como se lesse as angústias secretas, enfim voltou-se ao menino, o colorido insólito das íris, os dedos afilados segurando a faca, a voz mansa: vejamos como está o bolo. Cortou uma fatia e, contínuo, franziu o cenho. Julgava; e ele, sentindo as pernas frouxas, queria falar, mas a língua parecia colada às gengivas pelo gosto amargo que lhe subia desde a barriga. Julgou, e sem clemência: está pouco crescido, a massa ficou dura, desandou. O menino não pôde mais do que esgazear os olhos no pavor de voltar para casa sem dinheiro e sem nada. Não posso pagar por um bolo estragado; ela, perversa. Com as mãos sacudindo-se em nervos, ele já tencionava recolher a bandeja quando viu a dona, em repentino movimento, levantar-se e um dos braços – os sublimes braços – esbarrar no leikech. Ele ainda quis evitar a queda, mas os impulsos, encolhidos, eram poucos e confusos, e o seu desespero o pôs de joelhos ao chão, diante do amontoado sem qualquer forma definível, como se fosse monstro de pesadelo. Agora mesmo que não há como, está perdido, ela falou; recolhe isso tudo e diz à tua mãe para fazer outro. Restou-lhe obedecer, segurando as lágrimas, que só vieram quando já andava pelas ruas trôpegas. Tinha esse rasgo no peito, mas tinha fome, e a fome o torturava. Sentou-se na calçada, ao lado de um bueiro, e, enchendo os punhos com os farelos, pôs-se a devorar o bolo, às bocadas, feito um animal assustado, misturando o sal que lhe despencava das pálpebras com o açúcar inerte do alimento que enfim podia ter. No retorno, saciado, andava cabisbaixo, quase sem mover os pés, como se a vergonha lhe impedisse os passos – e era como se os ladrilhos é que deslizassem sob as solas dos sapatos gastos, pois até mesmo as pedras pareciam ter vontades que ele já não mais. E o tempo, substância influida, doçura morta, dilatado.