Patrono da Cadeira 09

 

Ramiz Galvão: professor, filósofo e cirurgião 

(por Frei Rovílio Costa)



Benjamin Franklin Ramiz Galvão, Barão de Ramiz, médico, professor, fílólogo, biógrafo e orador, nasceu em Rio Pardo, RS, em 16-6-1846, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 9-3-1938. Foi eleito a 12-4-1928 para a Cadeira n. 32, da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Carlos de Laet. Foi recebido a 23-6-1928, pelo acadêmico Fernando Magalhães. É patrono da Cadeira n. 9 da Academia Riograndense de Letras.

Filho de João Galvão e de Maria Joana Ramiz Galvão, aos seis anos veio com a família para o Rio de Janeiro. Concluído o primário no Colégio Amante da Instrução, cursou gratuitamente, com o apoio do Imperador, o secundário no Colégio Pedro II, bacharelando-sé em letras, em 1861. Aos 19 anos, escrevia o seu grande livro, O púlpito no Brasil, publicado em 1867. Formou-se em medicina, em 1868. Trabalhou inicialmente como cirurgião no Hospital Militar da Ponta da Armação, ingressando depois no magistério.

Helenista emérito, foi professor de grego no Colégio Pedro II, e de química orgânica, zoologia e botânica na Escola de Medicina do Rio de Janeiro. Não foi somente um mestre que honrou aquelas cátedras, mas um educador cuja longa existência decorreu a serviço do ensino.

Gozou da amizade de D. Pedro II desde os anos escolares. De 1882 a 1889, foi preceptor dos príncipes imperiais, netos de D. Pedro II e filhos do Conde d'Eu e da Princesa Isabel. Teve assim ocasião de conviver com o Imperador, que o chamou ao exercício de cargos honrosos. Realmente Ramiz Galvão teve, tanto no Império como na República, ocasião de ocupar vários cargos importantes, graças à sua capacidade de trabalho, valor intelectual e profunda cultura. Por decreto do governo imperial de 18-6- 1888, recebeu o título de Barão de Ramiz (com grandeza).

Dirigiu a Biblioteca Nacional e, por duas vezes, foi diretor geral da Instrução Pública do Distrito Federal. Foi também o primeiro reitor da Universidade do Brasil. Nos doze anos em que dirigiu a biblioteca Nacional, organizou a exposição camoniana de 1880 e a de História do Brasil, no ano seguinte, com os respectivos e preciosos catálogos. Também promoveu a publicação dos Anais daquela repartição. Organizou o Asilo Gonçalves de Araújo, instituição destinada a educar crianças pobres, conforme vontade expressa do seu doador, e foi seu diretor de 1899 até 1931.

A presença de Ramiz Galvão na história da filologia ficou marcada com o seu Vocabulário etymologico, ortographico e prosódico das palavras portuguezas derivadas da língua grega, publicado cm 1909, suscitando polêmicas vivazes. A mais extremada delas foi com Cândido de Figueiredo, que produziu 22 páginas de críticas, formando quase um capítulo do seu livro Vícios da linguagem médica, também de 1909. Em resposta, Ramiz Galvão deu a lume os Reparos à crítica, em 1910, reunindo artigos então publicados no Jornal do Commercio.

Foi Ramiz Galvão que, em 1904, alvitrou o nome de Silogeu Brasileiro para o edifício construído na Praia da Lapa e onde o governo se propôs a reunir várias instituições culturais, inclusive o Instituto 1 listórico e a Academia Brasileira de Letras. Só entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1928, aos 82 anos. Já havia concorrido em 1912 à vaga do Barão do Rio Branco, quando perdeu para Lauro
     
Müller, motivando isso o afastamento de José Veríssimo das atividades acadêmicas, inconformado com o resultado do pleito. Fez parte da Comissão do Dicionário (1928), da Comissão de Gramática (1929) e foi presidente (1934) da Academia.

Foi sócio grande benemérito do Instituto Histórico e Geográfico brasileiro, do qual foi orador perpétuo; membro honorário da Academia Nacional de Medicina e de diversas Associações Científicas e Literárias.

Obras: O púlpito no Brasil, in Biblioteca do Instituto dos Bacharéis em Letras, vol. 1 (1867); Apontamentos históricos (s.d.); Biografia do frei Camilo de Moserrate (1887); Vocabulário etymologico, orthographico e prosódico das palavras portuguesas derivadas da língua grega (1909); Reparos à crítica (1910); O poeta Fagundes Varela, conferência (1920); Teatro educativo, ensaio (1938). Traduziu A retirada da laguna da 3a ed. francesa do Visconde de Taunay (1919). (Informações contidas no site da Academia Brasileira de Letras (www.academia.org.br).

Histórico da Linha A E. F. Porto Alegre-Uruguaiana, aberta como empresa federal em 1883, ligando Santo Amaro (Amarópolis) a Cachoeira (Cachoeira do Sul). Para se ir de Santo Amaro a Porto Alegre utilizava-se a navegação fluvial no rio Jacuí. Em 1898, foi encampada pela Cie. Auxilaire, empresa belga, e em 1905 passou a ser a linha-tronco da VFRGS, ainda administrada pelos belgas. Em 1907, os trilhos atingiram finalmente Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Somente em 1911, a construção da linha Santo Ama-ro-Barreto-Montenegro possibilitou a ligação da longa linha com a Capital, utilizando-se parte da antiga linha Porto Alegre-Novo Hamburgo. Em 1920, a linha tornou-se estatal novamente. Em 1957, foi encampada pela RFFSA. Durante os seus anos de operação foram construídas algumas variantes, para encurtar tempos e distâncias, eliminando algumas estações de sua linha original. Em 1938, a variante Diretor-Pestana-Barreto diminuiu a linha em 50 km. Em 2-2-1996, deixaram de rodar os trens de passageiros pela linha, que, hoje transporta os trens cargueiros da concessionária ALL desde esse mesmo ano.

A Estação de Couto foi inaugurada em 1883 pela E. F. Porto Alegre-Uruguaiana, próxima ao arroio do Couto, que nomeou a estação. Em 5-1-1939, a estação passou a se chamar Ramiz Galvão. O nome homenageia o Dr. Benjamin Franklin Ramiz Galvão, Barão de Ramiz Galvão, ali nascido em 1846. Foi, entre outros títulos e cargos, o primeiro reitor da Universidade do Rio de Janeiro, em 1920. Atualmente a estação está em mau estado de conservação. Os trens de passageiros deixaram de parar ali em 2-2-1996. A estação foi recentemente reformada, em 2005. (Fontes: Guias Levi, 1940-1981; Patrimônio Ferroviário do Rio Grande do Sul, IPHAE, 2002; VFRGS, suas estações e paradas, Eng. Ariosto Borges Fortes, 1962; Guia Geral das Estações de Ferro do Brasil, 1960).

Raízes da Língua Portuguesa
Ramiz Galvão lutou por uma ortografia uniforme que, para ele, deve seguir a formação das palavras, no caso do Grego, respeitando na transcrição da ortografia, a raiz grega. É a grande razão de sua discordância com os dicionaristas de então (1909). Diz, à página II de sua introdução ao Vocabulário etymologico, othographico e prosódico das palavras portuguesas:

"Hoje, ao alvorecer do século XX, que vemos neste particular?

Em matéria de orthographia e prosódia acaso satisfazem os diccionarios portuguezes, que a mocidade diariamente maneia? São por ventura exemplares uniformes os escriptos mais bem acabados das hábeis pennas contemporâneas d'aquem e d'alem-mar?

Longe disto, cada qual grapha como entende, e os próprios glot-lologos discutem sem resultado práctico as vantagens do systema phonetico, etymologico e eclectico que correspondem ás trez correntes de opinião nesta matéria."

Reconhece as melhorias dos léxicos de Domingos Vieira, Caldas Aulete, Adolfo Coelho e C. de Figueiredo, que, diz , "estamos longe de desconhecer." Mas, em seguida, um a um, aponta as contradições etimológicas, que levou Cândido de Figueiredo a uma intempestiva reação, face aos equívocos que Ramiz aponta em seu Novo Diccio-nario da língua portuguesa (1899), exemplificando (p. XVII):

Como porém, pode tão douto philologo classificar de unuteis lettras e grupos de lettras, que têm o singular predicado de exclarecer I significação dos vocábulos? [...] A contradicção é manifesta. Se são erros as graphias: meza, caza, rizo, espoza, fasêr, rasão, amisade e outras deste jaez, também o são e pelos mesmos fundamentos ostoutras: filosofo, teocracia, abismo, ipotese, ipodromio, armonia, tísica, lira emorroides, ipogrifo, fotografo, etc. E a etymologia quem condena todos esses modos de escrever, já hoje inintelligiveis e abs-Iractos."

Saber as razões porque as palavras se escrevem desta ou daquela forma demanda à formação das mesmas, especialmente as derivadas do Grego e do Latim.

Ramiz, em seu tempo, foi competente defensor da pureza da língua portuguesa, e promotor da cultura brasileira.



     Porto Alegre, 4 de junho de 2007.