Patrono da Cadeira 15

(por Anselmo F. Amaral)

A literatura sul-rio-grandense tomou forma própria, com conteúdo regionalista, e expandiu-se a partir da fundação da Sociedade Partenon Literário, em 1868. Iniciativa de um grupo de jovens liderados por Apolinário Porto Alegre. Ali figuraram nomes como: Júlio de Castilhos, Assis Brasil, Fernando Osório (pai), Homero Batista, Lobo da Costa, Revocata dos Passos Ligueroa de Melo e o próprio Caldre e Fião.

Em meio àquela plêiade de escritores, artistas e homens de ciência apareceu um jovem poeta com, apenas, treze anos de idade. Nada mais que um menino. Logo chamou a atenção de todos pelo precoce talento e o valor de suas poesias, impressionando, especialmente, Lobo da Costa. O menino poeta chamava-se MÚCIO SCÉVOLA LOPES TEIXEIRA. Ele mesmo se dizia poeta por predestinação:

"Em principio Deus me fez poeta e tanto isto é verdade que eu nasci em setembro que é o mês em que nascem as flores da primavera e as flores da primavera são a poesia da natureza'.

Em outra passagem via a glória lhe acenar:

"Sou jovem, tenho apenas quinze anos, E vejo em risos me acenar a glória, Odeio os goivos; idolatro os loiros: Embriagam-me os hinos da vitória".

E com quinze anos, mesmo, publicou o seu primeiro livro de versos "Vozes Trêmulas". O ultra-romantismo domina os seus primeiros passos. Um poeta desse gênero o empolga e é seu culto:

"Casemiro, bardo inspirado, És mais que meu amigo. És meu cultor."

Com dezessete anos lançou o segundo livro intitulado: "Violetas" e o sucesso se agranda.

O nome de MÚCIO TEIXEIRA percorre todo o Brasil, levado por suas poesias, principalmente uma — Amar. Página obrigatória em todos os recitais, no norte, no sul e no centro do país. E a mais romântica de todas as suas produções, no dizer dos críticos. Sobre a mesma Salvador Rueda, grande poeta argentino, deixou escrito, numa visita que fez a MÚCIO quando o aguardou, na sua casa, em vão: "Vale uma reputación de poeta'":

"Amar uma mulher è tê-la inteira No coração, nos olhos e nos braços. Não consentir que ninguém mais a queira. Seguir-lhe sempre os passos".

Sobre a vida de MÚCIO TEIXEIRA:

Nasceu o poeta MÚCIO TEIXEIRA em Porto Alegre, no dia 13 de setembro de 1857. O pai um ilustre militar, da arma da engenharia. Ten. Coronel Manoel Lopes Teixeira, natural do Piauí. Foi, o mesmo, Presidente das Províncias do Rio Grande do Norte, Santa Catarina e Maranhão. Quando se preparava para assumir igual fun- ção na Província de São Paulo, a morte o surpreendeu. MÚCIO, na ocasião, tinha apenas três anos.

Dona Maria José, mãe de MÚCIO TEIXEIRA, tão logo o esposo faleceu, achou melhor transferir-se para a Corte. Além de MÚCIO tinha, também, uma filha, de nome Dolores, ainda menor que o irmão. Lá possuía parentes e amigos influentes. Deveriam ajudá-la. A viuvez deixou-a com parcos recursos.

A sorte, entretanto, não favoreceu Dona Maria José. Três anos depois estava regressando, com o casal de filhos, para Porto Alegre.

MÚCIO TEIXEIRA iniciou, assim, a sua educação no Rio de Janeiro, onde freqüentou o Colégio Vitória. De volta à terra natal prosseguiu os estudos no Colégio Gomes, para, depois, matricular-se no Colégio Rio-Grandense de Apolinário Porto Alegre, aquele que seria o orientador de suas idéias no Partenon Literário.

Tratando-se de pai militar, era natural que MÚCIO TEIXEIRA tentasse a carreira das armas, sentando praça no 5o Regimento de cavalaria. Nessa corporação teve o seu batismo de fogo, até, durante a rebelião dos "Muckers" em São Leopoldo.

Mas em MÚCIO o estro estava acima da espada. Decorriam três anos de caserna, quando o poeta-soldado assistia uma solenidade cívica no teatro São Pedro. Não podendo refrear o entusiasmo, assomou à ribalta, declamando o poema de sua autoria Inconfidência. Os seus comandantes viram, naquele gesto, um ato de insubordinação, advertindo o infrator. Bastou para MÚCIO abandonar definitivamente a farda.

MÚCIO TEIXEIRA contagiou-se, no Partenon Literário, pelos ideais abolicionistas, liberais e republicanos.

Como republicano liberal chegou a manifestar-se com a veemência que sempre o caracterizou:

"Brasil! Levanta afronte iluminada Pelos raios do sol da liberdade, E marcha pela estrada do progresso, Mas arreda do trono a Majestader

Um outro aspecto que bem definia o caráter do poeta: Quando se propunha alcançar um objetivo lançava-se à empreitada com tenacidade. O escalpelo do verbo e da inspiração deveria romper passagem, mesmo que o obstáculo oferecido fosse uma rocha granítica. Quando era vencido derivava por outros caminhos, caindo, muitas vezes, no pessimismo, embora momentâneo. Só assim poder-se-á compreender os declives de sua jornada e o declínio de suas forças impulsivas.

Veja-se:

"Hoje, sombrio e só, magro e doente"

Musset. MÚCIO TEIXEIRA extravasa a sua idolatria pelo Mestre Hugo, quando assevera levou de vencido, "desde Homero até Dante, desde Dante até Camões, desde Camões até Goethe, passando acima de todos eles..."

Na verdade existia, entre Victor Hugo e MÚCIO TEIXEIRA, até uma aparência de propósitos. "O legitimista da 'flor de liz' transforma-se em Bonapartista..."; depois de "expiar no exílio o crime da sua heroic idade" não se peja em pegar uma pensão mandada por Luiz Felipe; ainda aplaude a intervenção francesa na Espanha, querendo o restabelecimento do regime absolutista. Proclama-se um republicano ateniense e desfralda a bandeira tricolor contra a bandeira vermelha do terror.

Como épico, MUCIO lembra Castro Alves.

 Às 18 horas do dia 4 de outubro do ano de 1870 o Marquês do Erval, Marechal Manoel Luiz Osório, chamou seu filho Fernando e, do leito onde se encontrava, moribundo, pediu-lhe que agradecesse a todas as pessoas que lhe deram atenção durante a enfermidade. Por fim, pronunciou as últimas palavras: "Morro e perdôo as ingra-tidões. Adeus!" MUCIO TEIXEIRA, amigo e admirador do grande general Osório, por isso mesmo vinha acompanhando a sua agonia, naquela tarde do desenlace que enlutou todo o país.

Ainda, por contar com a proteção da Corte, MUCIO foi nomeado Cônsul Geral do Brasil na Venezuela. A sua estada naquele país irmão foi profícua, o meio literário de Caracas o acolheu com admiração e fidalguia. As suas poesias foram aplaudidas e logo vertidas para o castelhano, tornando-se conhecidas em todos os centros culturais da América Espanhola. MUCIO permaneceu, como Cônsul Geral na Venezuela, até a proclamação da República, quando obrigou-se a depor o cargo, voltando ao Rio de Janeiro. E mais uma vez se viu carente de qualquer recurso. Não assimilava o novo regime republicano. Era um desajustado até ali. Só um outro mecenas para aliviá-lo naquela situação. E o terceiro mecenas surgiu na pessoa do Barão de Campo Lide, presidente do Banco Sul-Americano. MUCIO TEIXEIRA foi logo designado para ocupar alto cargo na rede bancária dirigida pelo Barão. A reabilitação econômica veio logo, face aos altos vencimentos que passou a perceber. O poeta, não desmentindo os seus desígnios, houve por bem arriscar na bolsa, deparando-se com o chamado encilhamento, crise que derrubou até ministros. E assim ficou o poeta como dantes. O que fazer? ... A sua estrela o apoiaria, agora, por última vez. O último mecenas o chamou para o Sul — Júlio de Castilhos, presidente eleito do seu Estado natal. MÚCIO TEIXEIRA foi nomeado amanuense da secretaria da Justiça. Recebendo, ainda, a direção de um jornal.

Sobre a Revolução de 93, MUCIO escreveu um livro, em prosa. Um libelo contra Silveira Martins e os Federalistas e, como não poderia deixar de ser, uma apologia, ao mesmo tempo, à obra do Presidente Júlio de Castilhos. Outro trabalho em prosa intitula-se "Os Gaúchos", livro de alto conceito.

Por fim, MÚCIO TEIXEIRA se deixou atrair pelos mistérios filosóficos da teosofia e do esoterismo. Interpreta Pitágoras e transcreve "Versos Doirados", uma espécie de mandamentos. Escreveu, também, "Terra Ignota". Acabou criando uma personagem — Barão Ergonte — e se torna mágico, necromante, adivinho e até feiticeiro. Mesmo assim o poeta brilha com toda a imensidade. Inspirado em Krma, Parabrahm e Hierofonte escreve poesias que são preciosidades.

Em 1922 apareceu o livro intitulado "Brasas e Cinzas". Começa a lenta descida da montanha...O poeta se vê no espelho na natureza e conclui que ele é ela própria, ainda dominado pela fantasia do esoterismo.

MÚCIO morreu quase esquecido, no inverno de 1928. O poeta durou muito. Será que foi essa a causa da solidão? Não conseguiu, como o Mestre Victor Hugo, fazer da vida uma apoteose e do túmulo um altar.