Patrono da Cadeira 39

(por Francisco Pereira Rodrigues)


Retrospecto histórico:

Em 1º de dezembro de 1901, é fundada a Academia Rio-Grandense de Letras. Em 10 de abril de 1910, é criada a Academia de Letras do Rio Grande do Sul por egressos da Academia Rio-Grandense de Letras.

Em 20 de outubro de 1932, é fundado o Instituto Rio-Grandense de Letras. Entre os seus componentes figura Dario de Bitencourt, que, apaixonado pela literatura de Francisco Ricardo, resolve homenageá-lo como Patrono de sua Cadeira.

Em 1934, João Maia interrompe o adormêcimento em que caíra a Academia Rio-Grandense de Letras havia largo tempo. Entre os restauradores está Dario de Bitencourt que adota Francisco Ricardo como Patrono de sua Cadeira sob o número 23.

Em 1944, no dia 10 de abril, a Academia Rio-Grandense de Letras e a Academia de Letras do Rio Grande do Sul, que não vinham mantendo a necessária assiduidade, foram extintas, ensejando a criação da Academia Sul-Rio-Grandense de Letras por alguns membros das extintas, entre eles Dario de Bitencourt, na Cadeira 39, tendo como Patrono Francisco Ricardo.

Em 1962, a Academia Sul-Rio-Grandense de Letras passa a denominar-se de Academia Rio-Grandense de Letras.

Vaga a Cadeira n°39 por falecimento de Dario de Bitencourt, para ela é eleito Francisco Pereira Rodrigues.


2º Biografia:

Francisco Ricardo nasceu no dia 10 de outubro de 1893 e faleceu em 23 de abril de 1927, com 34 anos de idade.

Era filho de Marcos Ricardo, funcionário da Portaria da Faculdade de Medicina de Porto Alegre, e de Ernestina Pereira Ricardi de afazeres domésticos.

O nascimento ocorre numa casinha situada numa "avenida" da rua Câncio Gomes.

Estuda na aula primária da Professora Rita Pires, na Travessa da Olaria, em Porto Alegre. E aluno aplicado.

Em 1914, muda-se para o Rio de Janeiro em busca de novos ho-rizontes. Emprega-se como taquígrafo na Companhia de Seguros de Vida Sul-América.

Pela sua reta conduta e brilhante talento torna-se conhecido e prezado pelo mundo literário da então Capital Federal.

Em 1917, matricula-se na Faculdade de Direito.

Em 1919, lança o livro de versos intitulado "Solidão Sonora", que obtém aplausos da crítica nacional.

Em 1921, forma-se em Direito. E devido às excelentes relações que mantém com altas personalidades do mundo político, destaca-damente com o Dr. Melo Viana, ex-governador de Minas Gerais e futuro Vice-Presidente da República, consegue nomeação como Promotor Público de Estrela do Sul, naquele Estado.

Em 1925, assume o mesmo cargo em Pitanga, ainda em Minas Gerais.

Naquele mesmo ano, volta para o Rio Grande do Sul e é nome-ado Promotor Público(de Justiça) em Lagoa Vermelha.

Em 1926, é removido para a Comarca de Cachoeira. E nesse mesmo ano foi designado para Santa Maria.

Em 1927, a 23 de abril, morre em Santa Maria. Francisco Ri-cardo era dotado de uma personalidade curiosa. Extrovertido para com os amigos e circunspecto entre os estranhos. Profunda e des controladamente apaixonado pelas mulheres.

Em Lagoa Vermelha foi baleado num conflito decorrente de um encontro amoroso.

De Cachoeira teve de sair por envolvimento num caso amora-so.

Em Santa Maria, ele e um médico ultrajado morreram se enfren-tando numa peleja à bala. A causa foi um caso de amor.


3º Vida literária:

Em 1917, jovens beletristas da cidade do Rio de Janeiro fundam a Academia Brasileira dos Novos. E Francisco Ricardo está entre eles.

Essa Academia tem um particularidade: o Acadêmico ao alcançar 30 anos de idade passaria automaticamente para o quadro de honra, abrindo vaga.

Também mantém um interessantíssimo programa intitulado "Horas Literárias" levado a efeito em reuniões semanais no Salão de Honra do Jornal do Comércio, na Avenida Rio Branco.

No dia 25 de agosto de 1917, Francisco Ricardo toma posse solene, produzindo veemente discurso e recitando poemas de sua autoria.


4º Conclusão:

Francisco Ricardo madruga na vida intelectual. Um poema em que relata as dificuldades vividas na infância, quando já órfão e obrigado à manutenção da família, é um atestado eloqüente. Esse poema é dirigido à sua mãe e escrito no Rio de Janeiro. É comovente.

No entender de Dario de Bitencourt, Francisco Ricardo ausentou-se de Porto Alegre machucado pelo racismo, ele era negro. E como negro não se lhe ofereciam oportunidades. Vivia ainda o Rio Girande do Sul as cinzas mornas da escravatura.

Mas, ousamos pensar diferentemente, pelo menos no que tange àvida literária gaúcha. Zeferino Brasil era negro e foi consagrado publicamente como o Príncipe dos Poetas do Rio Grande do Sul.

Preferimos entender o caso como do temperamento pessoal de Francisco Ricardo sempre a procura de aventuras perigosas.

O seu estro alcança os píncaros da inspiração. Tê-lo entre os ilustres Patronos desta Academia é uma merecida distinção à brava roça negra, que tanto engrandeceu e continua a engrandecer em seus múltiplos aspectos a História do Brasil.

 

Como eu quisera a dona do meu nome (soneto de Francisco Ricardo)
 
Quisera que ela fosse diferente 
De todas. . . Esquisita. . . Superior. . . 
E assim pensasse diferentemente 
O pensamento universal do amor. . .
 
Quisera que ela fosse diariamente 
Inacessível ao maior louvor: 
Suscitasse rumor na turba ambiente 
Sem descer a pensar em tal rumor. . . 
 
Uma criatura de áulicas olheiras. . . 
Formosa. . . E de belezas imponentes 
Nos pensamentos como nas maneiras. . . 
 
Uma criatura instável como as horas. . . 
Que me adorasse em todos os poentes 
E que me odiasse em todas as auroras!