Exmo. Sr. Sérgio Augusto Pereira de Borja, MD Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras
Exmo. Srs. Membros da atual Diretoria, Avelino Alexandre Collet e Zélia Helena Arnaud Sampaio
Secretário Rafael Bán Jacobsen
Querido amigo Dr. Valdomiro Manfroi, paraninfo e apresentador
Srs. Convidados que aceitaram o convite para repartir comigo o júbilo desta noite.
Meus familiares e colaboradores da equipe de trabalho, todos, parceiros e apoiadores que, em sempre estando ao meu lado, são também responsáveis por minha admissão nesta Academia.
 
 
“OFÍCIO DE ESCRITOR”
(OU APOLOGIA DO LIVRO E DA LEITURA)
 
 
 
“A literatura tem muitos saberes”
(Roland Barthes)
 
“Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria?”                  
(Harold Bloom)
 
“Quem utiliza caneta e papel tem a vida envenenada por uma opção, a difícil escolha entre escrever “boa” literatura, capaz de satisfazer a consciência, e literatura fácil, que é boa para a conta bancária”
 (John dos Passos) 
 
“Os livros são pequenos pedaços do incomensurável”
(Stefan Zweig)
 
Quiseram, os confrades da Academia, indicar-me para ocupar a Cadeira nº 10, cujo patrono é Aquiles José Gomes Porto-Alegre. Em primeiro plano, detenho-me brevemente em sua biografia. Nascido em Rio Grande, no dia 29 de março de 1848, veio, ainda menino, para a capital do Estado, que levava o seu nome. Aqui cresceu e desenvolveu sua verve literária, voltada para a poesia e marcada  pela crônica histórica. Irmão de Apelles e de Apolinário, fundou com eles a Sociedade Parthenon Literário.  Sua obra Iluminuras teria introduzido o Parnasianismo em nosso meio. Como prova, bastam esses versos de sua lavra, selecionados do poema INVERNO. 
 
O sol seu brilho já perde...
No cerro as águas engrossam
Morrem as flores nos campos
Cruzam doudos pirilampos
Em um contínuo vagar
Lágrimas de nebulosas
Existências luminosas
Que para o céu hão de voltar
Em tudo vê-se a tristeza
Quer de noite, quer de dia
Na selva a doce harmonia
Das  avezinhas morreu.
A natureza soluça
Sucumbe ao peso da sorte…
Que a providência lhe deu
 
Em “Homens ilustres do Rio Grande do Sul”, publicado em 1916, bem como em “Vultos e Fatos do Rio Grande do Sul”, de 1919, apresentou, em fragmentos biográficos, os homens e os fatos dignos de menção na segunda metade do Século XIX. Descreveu tudo, exerceu o ofício, disparando uma verdadeira máquina fotográfica do passado, no dizer de Zeferino Brasil (1870-1942). Pioneiro na atenção aos problemas da ecologia, e defensor do nosso patrimônio histórico foi também o primeiro capaz de descobrir e reconhecer o valor do Prof. José Joaquim Leão – QORPO SANTO (1829-1883) –, o qual tornar-se-ia o precursor do teatro do absurdo em nossa terra.
 
Como jornalista, fundou e dirigiu o Jornal do Comércio – o primeiro jornal porto-alegrense a defender a libertação dos escravos – e de onde seu genro, Caldas Júnior (1868-1913), saiu para criar o Correio do Povo. A propósito, como memorialista, Aquiles escreveu: 
“Eu fui buscar Caldas Júnior para a redação do “Jornal do Comércio”, de minha propriedade e direção, havendo ele levado para o velho órgão de publicidade um poderoso concurso de jovens de elevado valor intelectual, com os quais mantinha relações de camaradagem e amizade. Foi essa uma das fases de brilhantes do “Jornal” e de que conservo a mais doce e fina saudade. Ao meu lado se conservou Caldas Júnior até 1895, época em que fundou o “Correio do Povo”, a quem imprimiu tão estupendo impulso que logo atingiu ao primaciado da imprensa gaúcha e ao posto de uma das folhas mais importantes do jornalismo brasileiro. (Em “A história popular de Porto Alegre”, citado por Charles Monteiro).
 
Também dirigiu o jornal A NOTÍCIA, tendo sido sócio fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e desta Academia. Faleceu em Porto Alegre, em 21 de março de 1926.
 
Em homenagem a Aquiles Porto Alegre, e em atenção ao meu ofício literário, para repartir com os meus confrades e convidados, empreendi reverenciada pesquisa, que denominei de “um bosquejo pelas iluminadas veredas da Literatura”, a fim de relatar-vos neste meu batismo de fogo, rumo ao convívio fraterno junto aos demais 39 Acadêmicos.
 
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Há muitos anos, quando fui conduzido ao Colégio Nossa Senhora do Carmo, em Caxias do Sul, para meu primeiro dia de aulas naquele educandário, eu já sabia que meu destino estava traçado. Ainda não completara sete anos de idade e, no entanto, já começava a estudar para ser médico. Meu tio e padrinho, Oscar Bernardo Pereira (1901-1953), casado com uma irmã de meu pai, professor e eminente cientista da época, era um paradigma da família. Hoje, em sua homenagem, existe a longa avenida que conduz até depois do Sanatório Belém (Hospital Parque Belém), do qual foi Diretor. Por seu vasto saber e experiência, também representava modelo profissional para seus filhos e familiares. Assim se fez a minha carreira médica: ao final do curso científico, quando todos se debatiam em tormentosas dúvidas quanto à opção para o vestibular, ao contrário dos demais colegas que encontrei no primeiro ano da Faculdade de Medicina (no velho e saudoso prédio da Sarmento Leite), eu já havia iniciado o aprendizado médico doze anos antes. Mas, se Medicina era a meta incontestável, a partir dos primeiros cursos escolares, logo que as junções das letras começaram a ter algum significado para mim, a leitura é que assumia um papel privilegiado em minha autoformação. 
 
Dos livros infanto-juvenis da Condessa de Sègur e de Monteiro Lobato, passei para aventuras de Karl May e de Emílio Salgari, até chegar a Júlio Verne e, logo em seguida, ao Robinson Crusoé, ao Corcunda de Notre-Dame, à Cidadela (A.J.Cronin), e nunca mais parei. A partir dos primeiros contatos com as narrativas daqueles volumes usados e manuseados, que eu buscava nas estantes empoeiradas dos sebos, aprendi a amar os livros. Se a princípio me pareceu que o tempo gasto em leituras extracurriculares era roubado ao aprendizado básico que me levaria à formação médica, logo vim a descobrir que estava enganado.
 
Era o inverso: quanto mais eu lia, mais me aprofundava no conhecimento dos mistérios que regem a vida e a morte, ou seja, mais me aproximava do homem na sua integridade psicofísica, justamente a função básica e primordial do médico em formação. Mas naqueles tempos, eu ainda não sabia que a Literatura, assim como a Medicina, são ofícios que afundam no sentido geral da existência, numa tentativa dolorosa de chegar até o fundo do mistério, como ensina Ernesto Sábato (1911 – 2011); e ainda, não ouvira falar em Shakespeare, Dostoiévski, Flaubert, Kafka, Camus e Borges, hoje meus autores preferenciais. 
 
Transcorridas tantas décadas de vida, posso ver com clareza que a semente que germinava na tenra idade frutificou e virou árvore de fortes raízes. A juventude passou, a maturidade transcorreu, o exercício profissional foi exercido com honradez e ética, mas sempre ao lado corria, em paralelo, o pendor pelas letras.  Quem quer ser escritor – pensei – deve tornar-se primeiro um bom leitor. O estudo praticado em busca do conhecimento literário ocupou boa parte das minhas múltiplas atividades. O apresentador, meu padrinho, confrade e amigo Manfroi, já se deteve, por demais até, na evolução de meu segundo ofício, como costumava dizer, quando ainda exercia a prática médica. No decorrer dessas décadas não seria inoportuno repetir Anton Tchécov (1860-1904), o exemplar contista russo, quando dizia que a medicina era minha esposa legal, e a literatura, a minha amante. Quando estava cansado de uma, passava a noite com a outra. E nenhuma perdia nada com a minha infidelidade. 
 
Talvez o período de exercício profissional vivido em pequenos vilarejos do interior do Estado, num tempo em que o médico era realmente de família – quando escutava com afeto as queixas dos pacientes, anotava a anamnese e praticava o exame físico, sem outros recursos tecnológicos – tenha me favorecido, nos longos espaços de reflexão, ausentes outros lazeres, a dedicação aos livros e à literatura. A medida que o tempo transcorria, além da memória e do conhecimento de múltiplos autores, procurei, na Biblioteca que construía, um texto básico que me pudesse orientar com segurança e fornecer dados de que necessitava para levar adiante a empreitada de plena formação literária. Encontrei na magnífica obra de Otto Maria Carpeaux (1900-1978) – História da Literatura Ocidental – em oito volumes, da Alhambra, o que precisava para iniciar o trabalho. O que não foi difícil, uma vez que eu já vinha me dedicando ao estudo da Literatura Ocidental, numa exaustiva revisão de conceitos, autores e obras, desde a Antiguidade Grega até a Modernidade. O tempo dispendido na busca de meu almejado propósito foi por demais recompensado pelo resultado alcançado. Acabei redescobrindo escritores dos muitos séculos abordados pelos volumes e neles me detive, perdendo-me no emaranhado daqueles que buscam um assunto e se envolvem nos contextos e nos labirintos dos múltiplos outros direcionamentos que a matéria encaminha. Aprendi muito da Literatura Ocidental, pelos encantos mágicos que a simplicidade do texto de Carpeaux ainda proporciona. 
 
Mais ainda, avancei, em pesquisas paralelas, no fluxo da amplitude cultural, este elo fundamental na corrente de aperfeiçoamento do ser humano, na História, na Filosofia, na Música e nas Artes em geral. As aspirações de nossa curiosidade são infinitas, elas buscam investigar todos os aspectos da vida universal. Do ser unicelular, microscópico - em sua pequenez diante do gigantesco e desconhecido universo cósmico - ao vácuo insondável dos sistemas estelares. Na busca pelo passado da Terra a curiosidade transpõe o tempo. O conhecimento desnuda a história universal. Confúcio (551 a.C – 479 a.C), quando diz, se ainda não sabemos o que é a vida, como poderemos saber o que é a morte? - reflete as nossas indagações. Até os dias de hoje, ainda e sempre, não encontramos respostas satisfatórias para: quem somos, donde viemos e para onde vamos? 
 
Na senda dos mistérios e na busca infinita de respostas, o livro ainda é o instrumento mais importante para investigação dessas incógnitas e consequentemente da educação integral do homem. Mesmo que, talvez exagerada, a expressão de Mallarmé (1842-1898), de que o mundo existe para chegar a um livro, não deve ser desconsiderada. Antecedendo a Antiguidade clássica, no tempo das primeiras civilizações, o nome sânscrito KATHÂSARIT SÂGARA já significava um mar formado pelos rios de histórias. Ou seja, um mar – oceano infindável, que é alimentado por inúmeros rios das mais diversas origens universais. Homero, Hesíodo, Ésquilo, Platão, Aristóteles, Cícero, Horácio, Plutarco, e tantos outros gregos e romanos, em ondas que se sucederam, foram levando as águas em direção ao mar encapelado que, cada vez mais, se alimentava de saberes. E a correnteza prosseguiu com Dante, al mezzo del camin de nostra vita, legando a Divina Comédia, que é tão real e verdadeira quanto hodierna. Afluentes, surgindo das mais variadas regiões do planeta, conduzem em seus leitos Dom Quixote e Sancho, do tragicômico Cervantes... Shakespeare, o bastardo de Stratford-on-Avon, o inventor do humano, o gênio máximo da dramaturgia... Corneille e Racine, com suas tragédias, ainda apreciadas nos teatros de nossas grandes cidades...  Jonathan Swift e As viagens de Gulliver... E Molière? Ah... o velho e avarento Molière que não deixou mais Comédias para ninguém...  Rousseau, com seu Emílio e as bases da Educação... E Voltaire, o inspirador de uma geração, filosofando ironicamente, um dos pais intelectuais da Revolução Francesa. Diz-se que: a Itália teve a Renascença, a Alemanha a Reforma; mas a França teve Voltaire, que representou, para seu país, a Reforma, a Renascença e metade da Revolução. Esses mortos, de séculos transcorridos, como disse Victor Hugo (1802-1885), são apenas invisíveis e não uns ausentes. Diríamos mais: visíveis e presentes na exposição de seus textos, impressos nas páginas indeléveis dos livros.
 
Quanta efervescência nos romances de Daniel Defoe, de Henry Fielding... nas páginas de Stendhal, algumas pintadas de vermelho outras de negro... em Johann Wolfgang Von Goethe e seus pactos com o diabo... no positivismo de Augusto Comte, que influenciou profundamente o nosso  rincão gaúcho...  em Gustave Flaubert, e no romance de costumes... na Comédia Humana do persistente Balzac... nas descrições fleugmáticas de Dickens, nas propostas de transformação social de Marx, no realismo chocante de Tolstói e Dostoiévski, nos fantasmas de Henrik Ibsen, na alegria contagiante de Mark Twain, nos poemas eternos de Walt Whitman, Ezra Pound, Bertold Brecht, na austeridade de Nietzsche,  no espírito irônico de Bernard Shaw, no Judas Obscuro de Thomas Hardy, na genialidade de Joyce... nos contos modelares de Tchécov, O. Henry, Scott Fitzgerald, e Cortázar. E Kafka, ao lado de Borges, mestres na arte dos finais infinitos.  E ainda Kafka, o Franz que jamais conseguiu desprender-se de Praga, a sua mãezinha com garras. E ainda e sempre Albert Camus com seu imprescindível O estrangeiro. E ainda e sempre Fernando Pessoa, com seus heterônimos, o poeta maior... Quem não há de se curvar, sensibilizado, diante da definição genial de que: "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente."
 
Ou, quando se depara, de súbito, com a primeira estrofe de Tabacaria:
 
Não sou nada
nunca serei nada
Não posso querer ser nada. 
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
 
O estudioso Eça de Queiroz nos possibilitou, através de seus livros, conhecer toda uma geração de nosso Portugal. Os perfeitos e maravilhosos contos de Machado de Assis, e seus estruturados romances de nossos costumes brasileiros. A luta sem tréguas de Graciliano Ramos, da infância ao cárcere. O médico e diplomata Guimarães Rosa, do Grande Sertão. Jorge Amado e a mulata Gabriela, com cheiro de cravo e cor de canela... O português Saramago, construtor de um texto escorreito e linear, promotor de instigante forma de leitura. O Tempo e o Vento, imortal, tanto quanto a tradição de nossa terra, assim como outros escritos de Érico Veríssimo.  Os autores da literatura africana de língua portuguesa – arrebatados nas guerras de independência - tais como Luandino Vieira, Pepetela, Bernardo Honwana, Manuel Lopes e, mais recentemente, Mia Couto.  
 
Que mundo mágico se nos descortina! É necessário ler, e ler com espírito crítico, examinar, concluir, meditar. Não sou adepto da leitura apenas como passatempo. Prefiro o prazer da leitura, entrelaçado com o acréscimo de conhecimento. Há um panorama maravilhoso em cada palavra, em cada frase, em cada página, em cada livro que se encerra. A leitura nos coloca na máquina do tempo, viajamos do legendário, distante e poético passado ao misterioso mundo da ficção científica do futuro.  Choramos e rimos. Amamos e odiamos os personagens, debruçando-nos, todavia, até a exaustão em busca do ponto final.
 
Tarefa difícil e perigosa é a de classificar os livros, distinguir as leituras, dividi-las em classes.  Há livros que reverenciamos e livros que continuamos a discutir; livros mortos e livros vivos. 
 
Há livros do momento e livros de todos os momentos. Esses são os imortais. Plínio, o Moço (61 d.C – 112 d.C), já os definiu como o falar das almas imortais dos mortos. São os inscritos no Cânone Clássico da Literatura Universal. 
 
Busquemos o livro. A leitura cria em nós um estado mental, espiritual, como consequência do que se lê. E o importante – como quer Proust (1871-1922) – é justamente o estado espiritual que as leituras podem criar em nós. Dentre os assim denominados princípios da leitura, consta o de resgatar a ironia. A ironia é o instrumento da literatura usado como denúncia, crítica ou censura. No dizer de Harold Bloom, este princípio leva-nos quase ao desespero, pois ensinar alguém a ser irônico é tão impossível quanto instruí-lo a ser solitário. Contudo, a morte da ironia é a morte da leitura, e do que havia de civilizado em nossa natureza. Uma vez destituída de ironia, a leitura perde, a um só tempo, o propósito e a capacidade de surpreender. Assim como o ensino da Matemática é um exercício de raciocínio e de memória, a leitura também promove o desenvolvimento intelectual. Pela palavra escrita, orientamos nosso pensamento. Estamos informados constantemente. Forjar o hábito da leitura, no processo educacional básico, é conquistar parcela vital de nossa educação integral.  A leitura deve ser considerada como hábito pessoal, e não como prática educativa. O prazer da leitura é pessoal, não social. A sonoridade poética de um bom verso, penetra fundo na alma. Méritos para Ernesto Cardenal (1925), inspirado em Ao Perder-te.
 
Ao perder-te eu a ti, tu e eu perdemos,              
eu, porque tu eras quem eu mais amava                
e tu, porque eu era quem te amava mais.
Porém, de nós dois, tu perdes mais do que eu:
porque eu poderei amar a outras como amei a ti,
mas a ti não te amarão, como te amava eu.
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A atração que exerce o primeiro parágrafo de um bom livro pode ser o estímulo necessário para a continuidade daquela leitura. Em certa época dos meus estudos detive-me nas melhores aberturas dos romances universais. Encontrei pérolas de narrativas ficcionais. Extremo egoísmo de minha parte seria escondê-las, frustrando os ouvintes, do prazer de conhecê-las.  Vejamos, então, algumas amostras. 
 
Certa manhã, quando Gregor Samsa acordou de sonhos agitados, encontrou-se em sua cama transformado em monstruoso inseto. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas... suas inúmeras pernas, finas, em comparação com o volume do corpo, tremulavam... 
( A metamorfose – F. Kafka)
 
Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe me disse. E eu prometi que viria vê-lo assim que ela morresse. Apertei suas mãos em sinal de que faria isso; pois ela estava morrendo, e eu decidido a prometer tudo. 
(Pedro Páramo – Juan Rulfo) 
 
Hoje, minha mãe morreu. Talvez ontem, eu não sei bem. Eu recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe morreu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isto não quer dizer nada. Foi talvez ontem. 
(O estrangeiro – Albert Camus)
 
Basta dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne; suponho que todos ainda se recordam do processo, o que dispensa maiores explicações sobre minha pessoa. 
(O Túnel – Ernesto Sábato)
 
A Literatura, assim como a Pintura e a Música, são artes eternas. Suas mensagens ficam gravadas para sempre.  Pertencem à Humanidade. Pela influência de um livro, muitas modificações podem ser realizadas. Um bom livro que pudesse tocar o coração de um monarca poderoso seria indubitavelmente bastante para influir sobre a conduta de todo um povo e sobre a felicidade de uma porção do gênero humano. Talvez a história da espécie humana não tivesse sido a que nos descreve Henry Thomas (1971): a de uma família de loucos construindo laboriosamente um palácio, para em seguida arrasá-lo impiedosamente, somente para depois repetir o mesmo trabalho inconsciente. Talvez não se tivesse levado dez mil anos trágicos para alcançar o grau atual de civilização. Por isso, nunca é demais repetir à exaustão: os livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas; os livros só mudam as pessoas. 
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E assim, depois desses longos périplos pelas veredas da Literatura, consolidei minhas duas atividades. Encontrei na expressão duplo-ofício, o que caracterizava com perfeição as minhas duas culturas, como propõe Snow. E comecei a compreender que o escritor, assim como o médico, deve ser Il miglior fabbro no sentido em que T. S. Eliot (1888-1965) usava essa expressão para falar de Ezra Pound (1885-1972): o melhor artífice, aquele que bem conhece a técnica. O médico, assim como o escritor, vive atento ao espetáculo da vida, faz-se a mais preciosa testemunha deste espetáculo, na opinião de Nelson Werneck Sodré (1911-1999): ele é aquele que assiste e o que depõe. São condições inerentes aos seus dois ofícios: o ofício de médico e o ofício de escritor. Daí, talvez, a sintonia que proporciona a aproximação. O contato diário com o sofrimento, a vivência emocional e a carga psicológica assumidas no decorrer de muitas jornadas à beira do leito, o hálito tão próximo da morte, le témoignage das mais íntimas e chocantes revelações do inconsciente, são algumas das experiências médicas que, absorvidas pelos sentimentos, se transformam em arte. Silvano Santiago (1936), em sua obra Nas malhas da letra, expõe que o acesso à carreira de escritor exige um diuturno exercício da autocrítica que visa a impedir de ser o falso ou passar o falso como verdadeiro; e que o próprio escritor deve fazer silenciosamente a sua autoanálise e a análise de sua obra. A crítica apenas diz o que o criador já pressente. O que de mais verdadeiro poderíamos afirmar também em relação à profissão médica, quando é exercida com humanismo?