Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, 
Dr. Alexandre Avelino Collet.
Senhor Vice-Presidente, Dr. José Carlos Laitano, meu prezado Paraninfo.
Demais componentes da Mesa dos Trabalhos.
Digníssimos Acadêmicos.
Excelentíssimas Autoridades presentes e representadas.
Caríssimos familiares, amigos, colegas magistrados, professores, ex-alunos.
Demais senhoras e senhores convidados.
 
 
    1 – Introdução.
 
    Antes de mais nada, agradeço ao prezado paraninfo, Dr. José Carlos Laitano, as bondosas palavras de apresentação. Muito me honra recebê-las de um acadêmico tão ilustre, magistrado, literato e promotor cultural amplamente conhecido e respeitado, aqui e no exterior, por seus trabalhos e publicações de autoria individual, quer teóricos quer puramente literários, e obras de autoria coletiva com sua organização e participação. Quando foi Diretor do Departamento Cultural da AJURIS, promoveu as mais belas edições da Caderno de Literatura da Associação. Este é um de seus trabalhos de excelência, entre tantos outros. Muito obrigado, caro Paraninfo.
 
    Senhoras e senhores. 
    Peço escusas pelo lugar-comum de dizer que me sinto muito honrado por ter sido eleito, em concurso público, para integrar a mais que centenária Academia Rio-Grandense de Letras, fundada em 1901. Agradeço a escolha de meu nome, ato que interpreto como juízo positivo, além de um gesto de confiança no que possa contribuir para o desempenho dos trabalhos e encargos culturais da entidade. A todos os agora confrades agradeço a amistosa acolhida. 
 
 
    2 – Dados biográficos, ponderações, agradecimentos.
 
    Não nego estar de algum modo surpreso, pois sou ou fui um forasteiro em Porto Alegre e no RS. Procedo do interior de São João do Oeste, no extremo Oeste de SC, outrora parte do município de Chapecó. Tendo em vista as dimensões de minha terra natal e sua distância daqui, “centro do mundo”, ouso pensar que os confrades imitaram os cardeais do último conclave no Vaticano (2013) que elegeram um candidato “do fim do mundo”, segundo a palavra do próprio eleito Papa Francisco. Dirão que estou “mal comparando”, em virtude da imensa disparidade entre as localidades e as personagens, mas isso é próprio da analogia do ser, que implica semelhanças e diferenças, em virtude do que tudo é comparável: O ser e o nada, O diabo e o bom Deus, A bela e a fera, O velho e o mar, os cardeais do Vaticano e os confrades da Academia. A agradável surpresa também se manifesta pelo generoso acolhimento que me deu esta bela metrópole de Porto Alegre: outrora, com a oportunidade de estudos e de trabalho; e agora, integrando-me na Academia de Letras. Lisonjeado pela distinção, procurarei honrá-la com todas as veras. 
 
    A posse como membro desta Academia é oportunidade histórica ímpar que julgo autorizar-me o registro de alguns tópicos de vida e formação, não mais do que comuns, porém significativos, até para fazer justiça a todos os que me ajudaram na caminhada. 
 
    Iniciei a formação na escola comunitária do professor unidocente Aloísio Körbes, de saudosa memória, em SC; continuei-a no RS, em Salvador do Sul, Pareci Novo, São Leopoldo e Porto Alegre. O professor de minha última disciplina no curso de Doutorado foi o filósofo tcheco Ernst Tugendhat. 
 
    Entre Körbes e Tugendhat muitos outros mestres, orientadores, benfeitores, incentivadores, colegas, editores, escritores em prosa e verso, entre outros, tornaram-se credores de minha gratidão. Ninguém se faz sozinho. O selfmademan é pura ilusão. Ninguém vence sem apoio e colaboração de muitos outros, especialmente na área da cultura, muito menos sem o concurso e a graça que vem do Alto. A criação ex nihilo (do nada) não é tarefa humana. Por isso o agradecimento, mais do que de simples bom tom, é “adequado e justo”, ou “nosso dever e salvação”, segundo fórmulas litúrgicas consagradas.
 
    Ao longo da caminhada contraí três amores culturais: pelas Letras Clássicas primeiro; pela Filosofia, depois; pelo Direito, por último. Não foram e continuam não sendo amores sucessivos, mas simultâneos, não mutuamente excludentes, porém predominando ora este ora aquele, cada qual em si irrenunciável. Cultuados em conjunto, marcaram de variadas formas minha trajetória, que tem duas faces: uma na Educação, outra na Justiça. 
 
    O educador anda na vanguarda, jogando a boa semente em terra fértil. O magistrado vem na retaguarda, colhendo os frutos pecos e mal-formados que se instalaram nas brechas ou falhas da educação. Trata-se de experiências diferenciadas, mas entre si complementares, que me tocaram. Foi tempo de dar ou devolver à comunidade a contraprestação pessoal por tudo que dela recebi ao longo da formação e do exercício profissional. Nada de especial ou extraordinário, pois a vida humana se perfaz na dialética do receber e dar, do dar e receber, como bem acentua o filósofo escocês Alasdair MacIntyre. A mesma dialética deverá continuar movimentando a vida, em obras e ações, como “fogo sempre vivo” (Heráclito), enquanto houver o que semear e o que colher.
 
 
    3 – Patrono da Cadeira 34: Fernando Luiz Osório Filho.
 
    O Patrono da Cadeira 34 desta Academia é Fernando Luiz Osório Filho (1886-1939).  Natural de Bagé, mudou-se com a família para Pelotas, onde fez os primeiros estudos. Formado em Direito no Rio de Janeiro, retornou para Pelotas onde se fixou, constituiu família, criou a Escola Prática de Comércio, participou da fundação da Faculdade de Direito, fundou o Primeiro Núcleo de Escoteiros, foi professor da Faculdade de Direito e do Ginásio Pelotense, além de diretor da Escola de Artes e Ofícios.
 
    Entre outros escritos, publicou O espírito das Armas Brasileiras, 1918; A cidade de Pelotas, 1922 [livro clássico sobre aquela cidade] e Mulheres farroupilhas, 1935.
 
    A atuação no ensino e a participação intensa na vida social foram-lhe condignamente reconhecidas pela gente de Pelotas, cidade que ele amava e que, por assim dizer, o adotou como filho. Por sinal, batizou com seu nome a principal avenida do bairro Três Vendas e lhe ergueu, em homenagem póstuma, uma herma no largo da Faculdade de Direito.     
 
 
    4 – Último ocupante da Cadeira 34: José Clemente Pozenato. 
 
    O último ocupante da Cadeira 34 foi José Clemente Pozenato (1938-), hoje no quadro suplementar. Formado em Filosofia e Teologia, Mestre em Literatura e Doutor em Letras, é figura polivalente: professor e escritor profícuo cuja obra compreende poesia, novela, romance, crônica, ensaio, literatura infantil e tradução. Sua obra mais aplaudida é o romance histórico O quatrilho, 1985. Adaptado para o cinema, chegou a concorrer ao Prêmio Oscar, na categoria de melhor filme estrangeiro, em 1996. 
 
    O autor se distingue por dar a conhecer, com habilidade, a vida comezinha nas colônias de imigrantes italianos. Traça amplo panorama do mundo cultural dessas comunidades, que vêm experimentando importantes transformações sob o impacto do multiculturalismo e da globalização, do choque entre a herança cultural conservadora e a modernidade liberal. Com mérito, conquistou um lugar de destaque no panorama da literatura sul-rio-grandense. 
 
 
    5 – O belo como forma de bem.
 
    O ser humano move-se à luz da razão teórica, em busca da verdade, e da razão prática, cujas dimensões são as do fazer (arte e técnica) e do agir (moral). 
 
    A literatura, que obtém especial culto nesta Academia, é uma das belas-artes, que visam à “expressão reflexa da beleza em forma sensível”. Persegue seu objetivo mediante a palavra, o verbo humano, análogo ao divino, que estava no começo: “No princípio era o Verbo” (Jo 1, 1). Por isso, com certeza, é uma das artes mais importantes, para não dizer a mais importante que ela talvez seja. 
 
    A arte como se encontra no artista, recta ratio factibilium (Tomás de Aquino), correta noção ou saber das coisas factíveis ou realizáveis, é um hábito bom ou virtude, a conferir ao agente o poder de operar bem, de criar obras que “vistas (conhecidas) agradem” (id.), que produzam satisfação ou prazer estético, capaz de conferir maior plenitude à vida humana. 
 
    A boa arte de qualquer gênero, como as boas ações em geral, é capaz de tornar o mundo melhor, mais rico, harmônico e palatável, por lhe acrescentar beleza cultural que ele, como natureza, não comporta. Afinal, “temos a arte, porque a vida não basta”, proclamou Ferreira Gullar, fazendo-se de alguma forma eco de Nietzsche, que apregoava: “Precisamos de arte para não morrer de verdade”. 
 
    A sentença do filósofo e literato alemão, entendida ao pé da letra, soa como um hiperbólico ou poético exagero. A verdade é o fundamento da justiça. Sem a apuração da “verdade dos fatos”, sentença justa só por acaso poderá ser prolatada. No mais, a verdade não só não mata, como ainda é capaz de salvar ou “libertar” (Jo 8, 32). Se vier a ser estabelecida cabalmente em nosso país, com certeza abrirá expectativa de dias melhores para todos, com menos inverdade, mentira e corrupção. 
 
    6 – Conclusão.
 
    Já concluindo, afirmo que esta Academia, fundada um ano depois da morte de Nietzsche (1900), propôs-se a divisa vitam impendere vero, consagrar a vida ao verdadeiro, que manifesta convicção contrária à do filósofo: a verdade não mata, mas salva e engrandece a vida. Desautorizou também, com antecedência de mais de um século, as sofísticas ideologias recentes da “pós-verdade”.
 
    Nada de estranho uma academia de literatura, cujo objeto formal é o belo, proclamar seu amor ao verdadeiro. É que a verdade, o bem e o belo são conversíveis entre si. O belo é uma forma de bem, como também o é a verdade, o bem da inteligência, colírio para os olhos do espírito.  
 
    Em suma, o belo na arte é um valor que, ao lado da verdade e do bem, é capaz de polarizar as pessoas honestas, sérias, de bom gosto. É um ideal digno, entre outros, de receber a dedicação sincera, por toda uma vida, ou pelo tempo de vida que resta. É como vejo a missão desta Academia.
    
    Muito obrigado a todos pela presença e a atenção.
    Tenho dito.
 
José Nedel
Academia Rio-Grandense de Letras 
Cadeira 34