Eu te saúdo contrito, Alegrete centenário, 
Berço chucro e legendário 
Da velha estirpe aporreada, 
Desde a Capela Queimada 
Que na lembrança ainda abarco 
Por ser o primeiro marco 
Da tua história agitada 
E me perco em dias idos, 
Lá por oitocentos e onze, 
Quando o índio cor de bronze, 
Gaudério do campo aberto, 
Fazia aqui pouso certo 
Bombeando a paisagem muda, 
Ladeando a bugra crinuda 
E o pingo pastando perto
E seguindo a trajetória 
Do teu passado fiel 
Vejo arredor de um quartel 
Ranchos, cavalos e reses, 
Charruas e portugueses 
Que irmanados na peleia 
Te deram feitio de aldeia 
Destruída tantas vezes
Acampamentto bagual 
Chamuscado nos combates,
Onde bugres e mascates 
Te deram toque festivo, 
Velho bivaque nativo 
Das mais caras tradições 
Clarim de revoluções 
Do Rio Grande primitivo
Te evoco ao rude entrechoque 
De espanhóis e lusitanos, 
Que nos varzedos pampeanos 
Tiraram cismas antigas, 
Vejo tropas inimigas, 
Incêndios, saques, matanças, 
E sangue a pingar das lanças 
Dos cavaleiros de Artigas
(...)
Mas se nada disso houvesse, 
Se fosses terra reiúna, 
Sem a História, essa fortuna,
Que o dinheiro não alcança, 
E a gente olvidasse a lança 
Que empunhaste na campanha, 
Só o nome de Oswaldo Aranha 
Seria imortal herança!

 

       ESTIMADO PRESIDENTE DA ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS, escritor Francisco Pereira Rodrigues:

       Como poeta e íntimo da poesia, o nobre confrade já reconheceu os versos de Jayme Caetano Braun, com os quais tenho a honra de iniciar esta saudação.
       E se os escolhi para vos saudar, poeta Élvio Vargas, é porque desejei honrar primeiro a sua e minha querência, também representada nesta Casa pelo brilhantes confrades Leandro Telles e Sérgio Borja.
       Alegrete é minha terra adotiva, ILUSTRES CONVIDADOS, ESTIMADOS COLEGAS DE ACADEMIA, mas não menos minha querência. Pois os filhos adotivos muitas vezes amam ainda mais a mãe que os educou com seu carinho, generosidade e sabedoria.

       SENHORAS E SENHORES

       Há pouco mais de um mês Alberto Santos Dumont havia extasiado o mundo ao contornar a Torre Eiffel com o seu balão dirigível, quando, no dia 5 de dezembro de 1901, era fundada em Porto Alegre a Academia Rio-Grandense de Letras.
       Não vos falarei de sua trajetória literária e histórica, nem dos escritores que por aqui passaram, a não ser recordando o nome do nosso primeiro presidente, Olinto de Oliveira, que dá nome a esta Casa, como Machado de Assis o faz com a Academia Brasileira de Letras.
       Mas posso vos assegurar, parafraseando Oswaldo Aranha, que. se não se pode escrever a história do Brasil sem molhar a pena no sangue do Rio Grande, também não se pode escrever a história da literatura brasileira sem conhecer a pena dos escritores e poetas rio-grandenses.
       Em 1906, cinco anos após o famoso vôo de Santos Dumont, em Paris, e a fundação de nossa Academia, em Porto Alegre, o calendário poético marca o nascimento em Alegrete de um dos mais geniais de nossos poetas.

Sob o olhar desconfiado da tia,
e o olhar confiante do cão,
o menino inventa a poesia.

       E ao saudar com seu famoso Hai-Kai o nosso mestre Mario Quintana, quero lembrar alguns outros poetas e prosadores que nasceram em Alegrete ou ali viveram o alvorecer de sua obra literária, bebendo a água do Rio Ibirapuitã: Alceu Wamosy, Lacy Osório, João da Cunha Vargas, Sérgio Faraco, Hernani Carvalho Schmidt. Hélio Ricciardi, entre muitos outros.
       Quarenta e cinco anos depois do nascimento de Mario Quintana, o Anjo Malaquias voltou a pousar nos telhados de Alegrete. E o fez na Rua Doutor Lauro n° 321. para abrir suas asas sobre o menino Élvio, filho de Wilma e Marzinho Vargas. Era o ano de 1951 e Getúlio, o mais famoso parente do recém-nascido, era o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil.
       Para Getúlio Vargas, sempre rebelde, Élvio nunca escreveu poemas. Como também não o fez para outro parente ilustre, Antônio José de Vargas, aquele pioneiro, filho de açorianos, que doou as terras para a fundação de Alegrete.
       Mas deixemos que ele mesmo saúde seus pais, já falecidos, mas seguramente aqui por perto de nós, com suas lindas palavras de amor:

 

FAROL DAS ALMAS

Para Marzinho Vargas
Naquela manhã de domingo 
teus passarinhos levantaram mais cedo 
e suspenderam temporariamente 
as aulas de canto. 
As cigarras do alto dos galharedos 
cantaram pela última vez 
tua sonata de verão. 
O vento que vinha 
trazia um toque nupcial 
da vida com a morte. 
O vento que ia
soprava as velas da lua embarcação. 
Teu olhar perdido era um leme de pedra 
teus braços dois remos parados
as mãos de marfim
uma estranha proa naquele mar de sargaços. Um pouco além do farol das almas 
já sabiam da tua viagem. 
Vai, Pai.
estão acesas as luzes do campanário. 
Naquela manhã de domingo
restaram apenas 
uma cadeira vazia 
e uns quadros de toda a vida 
pendurados na varanda das saudades.

 

COLCHA DE RETALHOS

Para Wilma Pereira Vargas
Pendurei a esperança
na parte mais alta
do varal
roupa suja, manchas, vícios
ficaram enxaguados
no fundo dos baldes
paixões encardidas e panos
permaneceram alvejados
no silêncio dos tanques.
As borbulhas que na água brotaram
não eram minhas
nem tuas
pertenciam ao espólio
dos amores submersos.
Pássaro, rio, nuvem, voaram,
restaram a solidão e o retrato.
Para espantar as sombras
varremos o pó das lembranças
e o cisco da existência.
Os fios engruvinhados da memória
pespontamos nos labirintos
de um ponto em cruz.

       Desde a primeira infância, Élvio sonhava alto. Seu brinquedo predileto era construir e levantar pandorgas. Alfabetizado no Grupo Escolar "Demetrio Ribeiro", cumpriu o destino dos jovens poetas, notas ruins em matemática e ótimas em redação. Já no Instituto de Educação "Oswaldo Aranha", aos 14 anos de idade, surpreendia os mestres com um quintanar de arrepiar os braços:

O que mais aterroriza
um grande amor
é a eterna sombra do passado

       Seguido por mais este, inspirado na travessia histórica do lpirapuitã:

Só a ponte conhece 
o segredo dos afogados

       Aos dezessete anos, publica um poema pela primeira vez, é claro, na Gazeta de Alegrete, o nosso jornal culto, valente e teimoso, que consegue ser o mais antigo do Rio Grande do Sul. Logo depois, fardado como "soldado Vargas" serviu a Pátria no 6o Regimento de Cavalaria. Logo a seguir, concluiu o curso secundário e veio morar em Porto Alegre. No Banco Iochpe, até que gostaram dele, mas decidiu voltar para Alegrete, "porque se sentia preso" e ansiava por liberdade.
       De volta a Alegrete, ele mesmo conta que só não foi engraxate e trapezista de circo. Vendeu automóveis, seguros, foi redator da Gazeta, dono de pizzaria. diretor de compras da Prefeitura. Mas, a partir de 1987, quando venceu o Concurso Lacy Osório, com o poema Reprise, começou a ser conhecido como poeta. A partir daí, seus poemas ganham espaço em jornais, revistas, coletâneas nacionais e internacionais.
       Um dia, aqui em Porto Alegre, recebi do IEL para opinar o manuscrito da sua primeira coletânea de poemas: Almanaque das estações. Recordo que pensei imediatamente em Miguel Ângelo e na sua capacidade de adivinhar, tocando num bloco de mármore, se ali estava guardada uma escultura. E se eu leio e não gosto, o que direi para o meu conterrâneo? Aberto o manuscrito, encontrei ali o que está ficando cada vez mais raro na literatura de língua portuguesa, um poeta.
       Desde 1993, até o presente momento, sem sacrificar sua obra a qualquer tipo de modismo ou exigência midiática, mantendo-se independente e puro, Élvio Vargas foi conquistando espaço na poesia gaúcha e brasileira. Importantes publicações revelaram a maturidade de seus poemas. A convite de nosso confrade Luiz Coronel, participa de edição bilíngue, intitulada Cidades gaúchas, ao lado de Armindo Trevisan, Carlos Nejar, José Clemente Pozzenato e outros, que foi premiado como melhor livro da Feira de Porto Alegre de 1997. Em 1999, a convite de Sérgio Faraco, participa do livro As árvores e seus cantores, edição Unisinos. uma coletânea luso-brasileira. Em 2000 está presente em outra antologia organizada por Luiz Coronel, intitulada O legado das Missões, com fotos de Leonid Streliaev. Edelweiss Bassis e Fernando Bueno, com parcerias do porte de Simões Lopes Neto e Jaime Caetano Braun. Em 2001, participa do livroAntologia do Sul, uma seleção de poetas rio-grandenses organizada por Dilan Camargo e editada pela Assembléia Legislativa. Em 2002, a convite do professor Albert Von Brunn, da Universidade de Berlim, participa da antologia temática sobre trens, Trilhos na Cabeça, com outros escritores e poetas brasileiros, como Quintana, Faraco, Scliar, Manoel Bandeira, além de escritores europeus de renome. A obra foi lançada em 2003 em Messina, Itália, e em Berlim. Em 2004, idealiza, organiza e edita através do Fumproarte o livro Torres da Província,um resgate histórico de doze igrejas de Porto Alegre, que tive a honra de prefaciar, obra com textos do nosso confrade Moacir Flores e de Armindo Trevisan, além de magnífico trabalho fotográfico de Edelweiss Bassis. Em 2006, lança na Casa de Cultura Mario Quintana o livro de poesias Agua do Sonho, cercado por uma multidão de leitores fiéis. Em 2008, participa de uma antologia formada por poetas clássicos e contemporâneos de oito países de língua portuguesa.
       Neste meio tempo, Élvio Vargas voltou a viver em Porto Alegre, onde, finalmente aposentou-se de outras atividades que não sejam culturais. Mora ali na Rua Santo Antônio, perto da Independência, com a esposa Brites e a filha Maina. Completam o primeiro círculo do poeta o filho Caian e a nora Karina.
       Apaixonado por cinema, e detestando guiar automóveis, Élvio vai a pé aos shoppings Total e Moinhos de Vento, geralmente à tarde, e sempre nas sextas-feiras, para assistir aos filmes em lançamento. E faz aquela cara de menino maroto ao confessar que trabalhou como coadjuvante no filmes O menino vai ao colégio, sobre a infância do escritor Cyro Martins e também em CIô, dias e noites. Como cinéfilo, revela sem hesitação qual o filme que mais gostou até hoje: Cinema paradiso, de Giuseppe Tornatore.
       Um dos momentos mais importantes de sua vida de poeta, Élvio Vargas reconhece, foi aquele em que voltou a Alegrete, em 2007, como patrono da Feira do Livro. O que prova, que se não existe profeta, pelo menos existe poeta em sua terra natal. A querência que ele cantou com um dos seus mais famosos poemas:

 

ALEGRETE

A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombra
e um cavalo de Tróia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçado de vertentes
na misteriosa profecia
de sua águas.
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sóis poentes.
Cartuns, Cartago
músicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos.
Igrejas de torres afiadas
num céu azulado de sonho
vigiado à distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei.

       Para preencher a imensa lacuna do Irmão Elvo Clemente, seja bem-vindo entre nós, Acadêmico Élvio Vargas.

(Porto Alegre, 15 de abril de 2010)