Os Sertões, de Euclides da Cunha, é uma grande obra de história, dentro da mentalidade positivista do início do século XX, com descrições das práticas do governo, relato de visão de mundo dos caboclos, análise de modo de vida no sertão e dos aspectos antropológicos de Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro.

Euclides da Cunha esteve em Canudos como correspondente de guerra do jornal Folha de S. Paulo, incorporado ao Estado-Maior do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt. Permaneceu um mês em Salvador, visitando hospitais, entrevistando militares e um prisioneiro, para elaborar suas reportagens. Em 30 de agosto de 1897 deixou Salvador, rumando para Monte Santo, aonde chegou em 13 de setembro, presenciando três semanas de luta. Com acesso de febre, retirou-se de Canudos em 3 de outubro, viajando para Salvador, sem presenciar a destruição da cidadela dos jagunços.

De sua caderneta de anotações saíram os artigos publicados noDiário da Bahia e na Folha de S. Paulo. As anotações, corrigidas e buriladas, serviram de base para escrever a grande obra do pensamento brasileiro: Os Sertões, publicada em 1902.

Euclides da Cunha plasmou seu pensamento nos princípios da doutrina de Augusto Comte, quando aluno da Escola Militar, por influência do professor republicano Benjamin Constant.

Em abril de 1897, Euclides da Cunha, ao ingressar no Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo, leu o trabalho intituladoClimatologia dos sertões da Bahia, que posteriormente integrou a primeira parte do livro Os Sertões, com o título A terra.

Num primeiro momento parece que essa parte está desconexa com o restante da obra, tanto é que já ouvi pessoas dizerem, para ler Os Sertões é melhor pular a primeira parte e passar logo para a segunda. Ledo engano, segundo modelo positivista, a história é analisada através do meio geográfico, principalmente as condições climáticas que provocam a seca ou explode em colorido na estação chuvosa, determina o martírio do homem que ali nasce, vive e morre. A descrição da terra é para abordar a segunda causa determinante da história: a raça.

Na época de Euclides da Cunha estava em moda a raça como explicação do progresso da sociedade, das vitórias na guerra, do sucesso comercial ou do atraso social, do insucesso nos empreendimentos econômicos. O indivíduo dependia de sua herança de sangue para ser valente ou covarde, honesto ou desonesto.

Euclides considera uma abstração a raça brasileira formada pelo índio, negro e branco. A fim de expor suas idéias de determinismo do clima, divide o Brasil em três áreas mesológicas distintas: a tropical formada pelos estados do Norte até a Bahia; a temperada, de S. Paulo ao Rio Grande do Sul e a subtropical, de Minas Gerais ao Paraná. (Cunha, 2000, p. 64-65).

Assim o Brasil teria três subcategorias raciais constituídas por seu processo histórico e pelas condições meteorológicas. Partindo das premissas de influências mesológicas e da subcategoria racial, Euclides da Cunha afirma: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”. (Cunha, p. 99). 

Ao traçar o perfil do sertanejo, Euclides da Cunha ressalta suas características aparentes de desengonçado, preguiçoso, lento e eternamente cansado, para explodir com energia diante de um incidente que lhe quebra a rotina, ou para buscar o gado que fugiu para a caatinga. Conforme afirma, sua antítese seria o gaúcho em suas atitudes, hábitos, afeito às correrias numa natureza carinhosa, que não assume as características selvagens da natureza do Norte.

Considera o gaúcho teatralmente heróico enquanto que o “jagunço é menos teatralmente heróico é mais tenaz, é mais resistente, é mais perigoso, é mais forte, é mais duro”. (Cunha, p. 104).

Dentro da história positivista, conforme proposta de Thomas Carlyle, é o herói que movimenta a história e por isto os vivos são cada vez mais governados pelos mortos, isto é, por seus exemplos. Qual o sertanejo, antes de tudo um forte, que movimentaria a história de Canudos? 

Euclides da Cunha classifica Antônio Conselheiro como truanesco e pavoroso, um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse, com oratória bárbara citando partes truncadas das Horas Marianas. O Conselheiro condensava o obscurantismo das três raças, num passo atrás da evolução social, pois considerava a lei da República como a lei do cão, o próprio cão. (Cunha, p. 138 a 142).


Arraial de Canudos

Antônio Conselheiro é o anti-herói, os heróis são os sertanejos que, após a derrota da terceira expedição comandada por Moreira César, dão à luta “feição misteriosa”, pois os soldados mestiços estavam abatidos com a derrota inexplicável e invadidos de terror sobrenatural. (Cunha, p. 291-292).

Além de forte, o sertanejo era protegido milagrosamente por Antônio Conselheiro. Em Pernambuco e Bahia surgiram apoios ao fanatismo do Conselheiro, enquanto as autoridades do Rio de Janeiro temiam o movimento que poderia destruir a república e implantar a monarquia.

A quarta expedição avançou dividida em duas colunas. A comandada pelo general Artur Oscar seguiu por uma trilha difícil, no meio da caatinga, sem comboio de mantimentos e com as carretas de munição acompanhando o pesado canhão Withworth 32, puxado por 20 parelhas de bois. Essa coluna foi atraída para o vale do morro da Favela e dizimada pelos jagunços protegidos por pequenas trincheiras ou pedras soltas. Os sertanejos escolhiam como alvo os oficiais, identificados por seus galões e fardas vistosas. O coronel Tupi Caldas, com o 30º Batalhão de Infantaria, formado por rio-grandenses, defendeu as peças de artilharia, quando os jagunços pretenderam capturá-las.

A segunda coluna, comandada pelo general Cláudio Amaral Savaget, avançou rapidamente por outro caminho, tendo na vanguarda 60 cavalarianos do Rio Grande do Sul, rumo a Cocorobó, aonde os jagunços esperavam entrincheirados. Carlos Teles comandou uma carga de baioneta e conseguiu por em fuga os sertanejos. Euclides da Cunha reconheceu que os gaúchos são imbatíveis nos encontros à arma branca. (Cunha, p. 351).

Euclides da Cunha não poupa elogios a Carlos Teles e aos lanceiros que “tinham a intuição guerreira dos gaúchos”. (Cunha, p. 342).

Por falta de abastecimento de víveres, os soldados passavam fome. Devoraram primeiros os bois que puxavam os canhões, depois os lanceiros gaúchos se embrenhavam na caatinga e traziam o gado magro que mal dava para alimentar os soldados. Alimentavam os doentes com farinha e sal. De 28 de junho a 13 de julho os soldados passaram fome e sede, até a chegada do primeiro comboio de alimentos, que logo tornaram a escassear. 

O ataque a Canudos iniciou no dia 18, com a vanguarda do 30º Batalhão de Infantaria, comandado pelo coronel Antônio Tupi Caldas, desalojando os jagunços de tocaia encoberto pela touceira de bromélia, camuflados com a roupa de couro, em cada acidente do terreno.

O sargento da artilharia Marcos da Costa Villela, que participou da expedição Moreira César e da coluna de Artur Oscar, também se referiu à coragem do coronel Tupi Caldas e do 12º Batalhão de Infantaria, apelidado de Treme-Terra. (Villela, p. 70).

Paradoxalmente é essa antítese do sertanejo, o sul-rio-grandense, que enfrenta as condições mesológicas do sertão, captura o gado que fugiu para a caatinga para alimentar a tropa faminta, sem se enredar nos espinhos da caatinga e destrói Canudos, contrariando as argumentações baseadas no clima hostil do Norte. 

Para completar a morte trágica de Euclides da Cunha, em busca da vingança da honra ferida, acontece pela arma empunhada por um gaúcho: Dilermando de Aguiar.

Retornando à magnífica obra de Euclides da Cunha, encontramos um vazio de mulheres, embora elas lutassem ao lado dos jagunços. Há referência à Helena, tia de Antônio Conselheiro, mulher má e vingativa que armou uma intriga, levando o Antônio Maciel a matar a própria esposa. Desde então, o místico Conselheiro só falava de costas, mesmo às beatas, considerando-as “face tentadora de Satã”. Nesse vazio feminino não estaria Euclides da Cunha projetando seu conflito amoroso com a esposa? (Calasans, p. 14-15).

As críticas à estratégia militar, feitas a todo o momento por Euclides da Cunha, são rebatidas por Dante de Mello, com as partes oficiais e dados estatísticos. Tristão de Alencar Araripe também critica o texto de Euclides da Cunha que exalta a estratégia dos jagunços ofuscando a estratégia dos militares.

A obra de Euclides da Cunha descontentou os militares por seus relatos sobre o despreparo das expedições e as falhas na logística da última; desgostou ao governo por afirmar que o movimento não era monarquista; condenado por intelectuais pelo excessivo uso de termos científicos; criticado pelos baianos que defendiam Antônio Conselheiro, só recebeu apoio dos ex-alunos. Em suma, um livro polêmico por mostrar um amplo panorama da geografia do nordeste, uma síntese magistral da história brasileira, um amplo quadro antropológico e uma crítica contundente sobre a política da república, uma república distanciada do povo, que não era a que Euclides da Cunha e nem os brasileiros desejavam.

(Comunicação realizada na Academia Rio-Grandense de Letras, em 10.9.2009).

 

Bibliografia

     ARARIPE, Tristão de Alencar. Expedições militares contra Canudos. Seu aspecto marcial. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1960.
     CALASANS. No tempo de Antônio Conselheiro. Salvador: Progresso, sem data.
     CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2000.
     MELLO, Dante de. A verdade sobre Os Sertões. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958.
     VILLELA JÚNIOR. Marcos Evangelista da Costa. Canudos: memórias de um combatente. S. Paulo: Marco Zero, 1988.