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O Poeta e as Redes Sociais - de Armindo Trevisan

12 de dezembro de 2018

(Alocução de agradecimento aos membros da Academia Rio-grandense de Letras, pronunciada no dia 07 de dezembro de 2018,  por ocasião da recepção do título “O Escritor do Ano”).

 

I.

Nos últimos tempos tenho-me interessado pelo fenômeno das redes sociais.

Antes da explosão dos novos meios de comunicação, em especial da Internet, as pessoas – digamos, genericamente, a opinião pública - divulgava suas idéias e sentimentos através de uma oralidade fragmentada,a qual - por assim dizer - se perdia no ar instantaneamente, ou quando muito,  era  guardada pela memória de algumas pessoas.

O surgimento da Internet modificou a amplitude e o poder da oralidade.  Pernitiu-lhe  a passagem para a escrita, que converteu os comentaristas de outrora  em neo-escritores.

É sobre tal fenômeno  que desejo refletir.

Como sou, um leitor apaixonado de Blaise Pascal, o famoso cientista e pensador do século XVII (1623-1662),  autor da obra clássica: “Pensamentos”, resolvi partir de uma reflexão desse livro referente ao ato de escrever. Diz Pascal:

- Quando as palavras espontâneas de alguém pintam uma paixão ou um efeito, encontramos em nós mesmos a verdade do que ouvimos, à qual não sabíamos que existisse, de maneira que somos levados a amar quem no-la faz sentir; porque não nos exibe o seu bem e sim  o nosso; e assim , esse benefício no-lo torna digno de ser amado, além do que essa comunidade de inteligência induz necessariamente nosso coração a amá-lo. (Pensamentos. Artigo I. Pensamentos sobre o Espírito e sobre o Estilo. N.14. Tradução de Sérgio  Milliet. São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1957. p. 51).

Em sua reflexão Pascal destaca, primeiramente, um aspecto da comunicação humana: “as palavras espontâneas”. Mostra como nelas pode existir uma verdade, “que não sabíamos que existisse”, de maneira que, por sermos gratificados com tal descoberta, somos levados a amar quem no-la faz sentir. Noutros termos, Pascal louva a comunicação social em si, porque nos traz benefícios, mediante uma sorte de comunidade de inteligência.

Prosseguindo nas suas reflexões, o pensador acrescenta:

- A eloquência é a arte de dizer as coisas de maneira, primeiro: que aqueles a quem falamos possam entendê-las sem dificuldade e com prazer; segundo, que nelas se sintam interessados, a ponto de serem impelidos pelo amor próprio a refletir sobre elas.(N. 16. Ibid. p. 51).

Permito-me reproduzir outra reflexão de Pascal, que também me chamou a atenção:

- Quando deparamos com um estilo natural, espantamo-nos e nos alegramos, porque esperávamos encontrar um autor e encontramos um homem. Ao contrário, os que têm bom gosto e pensam ao ver um  livro, descobrir um homem, surpreendem-se com achar apenas um autor. (N. 29. Ibid. p. 53-54).

Penso que as redes sociais possibilitaram - às pessoas, em geral - passarem de usuários da oralidade à condição de autores. O problema que então se apresentou foi o seguinte: a tais autores não foram exigidas condições mínimas razoáveis para o exercício de sua produção escrita.

É sobre isso que desejo solicitar a atenção dos senhores.

Comecemos formulando uma pergunta:  

  - Como foi que, de repente, se concedeu aos cidadãos comuns, “a tout le monde”, a possibilidade de multiplicar  as próprias idéias e sentimentos?

Tal possibilidade não é tudo. Façamos, imediastamente outra pergunta:

- Será que todo o mundo, por direito de nascença, ou simplesmente por direito de  cidadania, é capacitado para gerar idéias ferteis e brilhantes, com um mínimo de originalidade, ao ponto de se justificar sua distribuição maciça através do veículo de comunicação mais eficiente já inventado pela Tecnologia?

Às  duas perguntas anteriores, adicionemos, eventualmente, uma terceira indagação:

- Em relação aos sentimentos, que subjazem às idéias, que são o objeto principal da comunicação, seriam eles tão vantajosos à sociedade para poderem ter uma divulgação tão ampla?

Perdoem-me, caros amigos, mas sou obrigado a formular uma quarta pergunta:

- Não existirá, entre o falar e o escrever, um espaço a ser transposto!

   Em termos despretensiosos:Qual a diferença que existe  entre o falar e o escrever?”

  Observemos que escrever  não é apenas reproduzir a fala

Escrever é um ato de purificação da fala. Escrever é filtrar a expressão oral. Escrever é conduzir a fala, que é comum a todo o ser humano, pois todo o ser humano é um falante, à sua perfeição relativa. Noutros termos, escrever é conduzir a oralidade a  um grau de delicadeza e elegância, que, normalmente não existe no ato oral.

Digamos ainda: a fala, por assim dizer, jorra do ser humano. Mas jorrar não supõe modelar nem modular a comunicação.

A maioria de nossas efusões emotivas  fica, de certo modo, suspensa a uma das extremidades da gangora:  ou agrada muito às pessoas, ou lhes causa perplexidade, e às vezes mal-estar.

 

II.   

Convido-os a recorrer à própria experiência.

Em determinadas ocasiões - por ocasião de um luto, ou na oportunidade em que uma criança nasce, ou mesmo, quando um amigo ou uma amiga obtêm um sucesso pessoal ou profissional - todos gostamos de expressar nossos sentimentos e emoções. Sentimo-nos, até, obrigados a isso, ao menos em relação às pessoas com as quais estamos aparentados, ou com as quais nos relacionamos de modo particular.

- Não é, justamente, nessas ocasiões em que  nos sentimos embaraçados?

 Cada vez que nos vemos diante de nossos pais, ou de nossas mães, no dia de seu aniversário, ou de outra comemoração relativa a eles, sentimo-nos inseguros. Muitas vezes chegamos até a emudecer  

O mero acercar-se a alguém, para dizer-lhe em tom coloquial ou de jargão: “Ó Cara,  és um gênio!” , ou, tratando-se de uma mulher, quando a saudamos com uma sorte de auréola humorística, do tipo: “Menina, estás com tudo, e não estás prosa!” – tais atitudes  nos fazem descobrir que alguma coisa nessas manifestações não é fluente nem fácil.

 

III.

Podemos sustentar que não é comum, nem corrente, expressar cvorretamente  os próprios sentimentos e emoções!

 Tentarei definir ainda melhor o problema.

O ato de escrever pressupõe duas coisas: um mínimo de talento, e um mínimo de treinamento. Só assim conseguimos pescar, no interior de nossas mentes ou de nossos corações, algumas pérolas para eventuais leitores nossos.

Nos meus tempos de preparação para meu Doutorado em Letras (em Estética e Filosofia da Arte) na Universidade de Fribourg, na Suíça, na década de sessenta,  ouvi  de um professor chamado I. M. Bochenski, autor de uma conhecida História da Filosofia Contemporânea, publicada também no Brasil [1] uma advertência severa:

- Caros alunos – disse-nos ele, um dia - vocês ainda estão convencidos de que sabem tudo? A verdade é o contrário do que vocês pensam. Vocês quase não sabem nada! Peguem uma folha de papel, e experimentemte escrever algo original, ou aproveitável, a respeito de qualquer assunto. Vocês descobrirão como é grande a indigência mental de vocês!  Vocês descobrirão que têm pouquíssimas coisas para dizer.

Creio que tal advertência, na atualidade, seria considerada politicamente incorreta. Por que? Porque há um certo excesso nos elogios. E por outro lado, abusamos, igualmente, das correções e censuras, que distribuímos, não raro, sem sensatez.

A grande imprensa, paradoxalmente, faz questão de estimular os leitores a tecerem comentários às notícias do dia. Ela acolhe, sem grande preocupação pela triagem, transbordamentos  rancorosos e observações mal-humoradas. O humor praticamente inexiste nos comentários dos leitores.

Perdoem-me que, neste instante, lhes abra o jogo!

Ou seja: estou  propondo a vocês, meus colegas na vossa condição de escritores, que intensifiquemos nossa responsabilidade social, de modo a darmos mais atenção ao ensino da língua portuguesa nas escolas, e ao seu emprego na vida social e política do país. Necessitamos insistir, especificamente, no aperfeiçoamento do exercício  da palavra escrita.

Eis porque me dirijo, em especial, às Redes Sociais. Ousaria dizer-lhes: lembrem-se que escrever é passar a limpo a oralidade, elevando-a a um patamar de dignidade e eficiência. Escrever é como fazer um esforço, consciente e constante, para tirar de um poço (este poço pode ser considerado nosso– próprio coração) - algo valioso do ponto de vista da inteligência, da nobreza, da finura, e da utilidade social.

Santo Agostinho escreveu: “Grande abismo  é o homem, Senhor! Contais os fios de seus cabelos (...) poeém seus cabelos são muito nais fáceis de contar que os afetos e movimentos de seu coração”.[2]

Joguemos, pois, nosso balde ao fundo de nossas personalidades, buscando apanhar um pouco de água viva, quiçá uma gota daquela água – a que Cristo se referiu – a qual serve para a sede, tanto dos homens, como  dos animais, também  daqueles animais que mais amamos, os cavalos e os cães. Maomé disse que Alá recompensaria quem desse de beber a um cão![3]

Dar de beber a um ser humano um único copo de água límpida, isto é,  oferecer-lhe uma palavra bem escrita, é ato que  Deus recompensará.

 Na última Feira do Livro de Porto Alegre, adquiri um livro de Gabriel García Márquez, no qual foi publicada a totalidade de seus discursos públicos. Impressionou-me, em especial, um discurso que o escritor proferiu na cidade de Zakatecas, no México, no dia 7 e abril de 1997, na inauguração do “Primeiro Congresso Internacional de Língua Espanhola”. Dessa obra-prima de sentido humanístico, cito-lhes o seguinte trecho:

- Aos doze anos de idade.  corri o risco de ser atropelado por uma bicicleta. Um sacerdote, que por acaso passava no local, me salvou, ao gritar: “Cuidado!” O ciclista, de tão surprêso, chegou a cair  por terra. Sem deixar de continuar seu caminho, o sacerdote acrescentou: “Viste como é grande o poder da palavra?” Desde esse dia tomei consciência disso. Agora nós o sabemos, como o sabiam os Maias desde os tempos de Cristo, e com tanto rigor o sabiam, a ponto de terem  um deus especial para as palavras.[4]  

Garcia Márquez concluiu assim seu discurso:

- (,,,) nunca houve no mundo tantas palavras com tanto alcance, autoridade e arbítrio na imensa Babel da vida contemporânea. Palavras inventadas, maltratadas, sacralizadas pela imprensa, por livros descartáveis, por cartazes de publicidade, palavras faladas e cantadas nas rádios, na televisão, no cinema, ao telefone, nos alto--falantes públicos; gritadas a todo vapor, nas paredes das ruas, ou sussurradas ao ouvido nas penumbras do amor.  O grande derrotado é o silêncio.[5]

Sendo escritor, e especialmente poeta, insisto na angustiada exclamação de García Márquez: o grande derrotado é o silêncio!

Permito-me, precisamente, neste momento, retomar a minha citação inicial de Pascal: é preciso que as Redes Sociais se apercebam de que há um risco gravíssimo no uso irresponsável das palavras.  O mesmo Pascal observou: “Assim como se estraga o espírito, estraga-se também o sentimento. Formam-se o espírito e o sentimento pelas conversas. Estraga-se o espírito e o sentimnento pelas conversas.” (N.6. Ibid. p., 49-50).

Anteriormente, citei a frase de Pascal: “Alegramo-nos quando esperávamos encontrar um autor, e encontramos um homem.”

Sdejamos sinceros: as Redes Sociais estão cheias de néo-autores, ou de candidatos-a-escritores, mas se buscamos nelas “os homens”, que os autores deveriam revelar, nem sempre os encontramos.  

Afinal, o que é que faz um verdadeiro poeta quando compõe seus poemas?

Não faz outra coisa senão extrair das reservas de silêncio da Humanidade (diria dos silêncios que as bocas dos mortos carregam para o túmulo!) as verdades e as emoções essenciais.

 Na nossa sociedade, infelizmente, tudo é gritado, proclamado, rugido, como se tivéssemos nascido surdos, e pudéssemos ser curados de nossa surdez  (exterior e interior)  mediante a exacerbação das vozes, ou mediante a estridência dos decibéis que a genética programou para ouvidos racionais. Fazemos tudo para nos aturdir, e assim  não escutarmos os apelos misteriosos de nossa intimidade.

Deixo claro, todavia, que não desejo a  extinção das redes sociais!

Desejo que possamos revalorizar a Palavra, sobretudo a palavra escritaaté as migalhas da verdadeira Palavra, que para os cristãos, em última instância, é o Verbo de Deus.

 Temos de convir que o acontecimento mais assombroso que ocorreu em nosso Planeta,  foi o de uma noite de dezembro, quando, no interior de uma gruta de uma  pequena cidade da Judéia, o Verbo– se fez Carne, e habitou entre nós[6]

 É importantíssimo lembrar que esse mesmo Verbo, ao proclamar seu Evangelho, advertiu-nos:

- Eu vos digo que de toda palavra inútil, que os homens disserem, darão contas no Dia do Julgamento”.( Evangelho de Mateus 12, 36).

 Senhoras e senhores, tentemos purificar e elevar em nossa terra a expressão verbal  seja ela oral, seja ela escrita.

         Muito obrigado!

 


[1] I.M.Bochenski: A Filosofia Contemporânea Ocidental. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo, Editora Herder, 1962.

[2] Citado por Peter Brown: Santo Agostinho, uma Biografia. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora Record, 2005. p. 209.

[3] Mohammed Ali:  O Pensamento Vivo de Maomé. Tradução de Jeannette Marillier. São Paulo, Livraria Martins |Editora, 1952. p. 64.

[4] Gabriel Garcia Márquez: Yo no Vengo a Decir um Discurso. Buenos Aires, Sudamericana, 2010. p.119.

[5] Idem, ibid. p. 119-120.

[6] Prólogo do Evangelho de São João. Cf. Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista; quinta impressão. São Paulo, Edições Paulinas, 1991, p.1985-1986.

 

 

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CADEIRA 36

Lindolfo Collor

Lindolfo Collor nasceu em S. Leopoldo, em 4.2.1890 e faleceu no Rio de Janeiro, em 21.10.1942. Era filho de João Boeckel e de Leopoldina Schreiner Boeckel. Sua mãe enviuvou e contraiu novas núpcias. Lindolfo adotou o sobrenome Collor do padrasto.

Lindolfo Collor estudou o primário na Barra do Ribeiro, RS, e o secundário na escola do professor Emílio Meyer, em Porto Alegre. Diplomou-se em Farmácia, em Porto Alegre e na Academia de Altos Estudos Sociais e Econômicos do Rio de Janeiro, em 1922

Em 1908 trabalhou como jornalista em Bagé e depois dirigiu o Correio...

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