Patrono da Cadeira 18

(por Marília Beatriz Cibils Becker)

Alfredo Varela, conhecido em todo o país corno político, escritor, diplomata, Procurador da República, no RS; Deputado Federal e doutoramento no Rio de Janeiro.

A 10 de setembro de 1864, nasceu Alfredo Augusto Varela de Villares, em nosso Estado, em Jaguarão, mas bacharelou-se em Direito pela grande Escola do Recife, em 1889, aos 25 anos, no período da Proclamação da República. Recebeu os ensinamentos preciosos c fontes de cultura dos expoentes intelectuais brasileiros, que imprimiram erudição a presidentes da República, juristas, diplomatas, oradores, poetas, historiadores e jornalistas.

A Lei de 11 de agosto de 1827, que a Assembléia Geral do Império do Brasil decretou, e D. Pedro I, Imperador, sancionou, no Palácio RJ, foi referendada pelo então Ministro Visconde de São Leopoldo, que, deputado Federal, muito dedicou-se ao projeto da Fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil, marco do ensino superior nosso. O mesmo Visconde fundou este casarão da Rua Duque de Caxias, n° 968, Solar dos Câmara.

Como comemoração ao sesqüicentenário da criação dos cursos jurídicos no Brasil, houve edição de selo comemorativo em 1977, trazendo na estampa o início e o final da lei mencionada, sendo, portanto, em São Paulo e em Olinda onde funcionaram os dois cursos fundados simultaneamente, porém, o de Olinda transferiu-se ainda no Império, para Recife.

Dedicou-se à pesquisa histórica, foi preconizador do positivismo, cônsul em diversos países, travou grandes libelos histórico-políticos e defendeu a área das Missões Orientais para os aldeamentos jesuí-licos do século XVII do Rio Grande do Sul.

Obras produzidas:

  1. A Constituição Rio-Grandense. Opúsculo, 1884.
  2. Rio Grande do Sul. Descrição geográfica, histórica e econômica, 1897- 1º Tomo.
  3. A lógica das Revoluções. Opúsculo, 1899.
  4. Direito Constitucional. Reforma das Instituições Nacionais, 2ª edição, prefaciada por Martins Júnior, 1899.
  5. Pátria. Livro da mocidade (premiado com a Medalha de Ouro, na penúltima exposição nacional - livro esgotado).
  6. Código Financeiro na República, 1900/02.
  7. Das Grandes Intrigas. História dia Emancipação da América do sul, 1919, em dois tomos.
  8. Remem brancas. Tempos idos e vividos, Ia série.
  9. Revoluções Cisplatinas, 1915, dois tomos.
  10. Política Brasileira. Interna e Externa, 1929, em dois tomos.
  11. História da Grande Revolução - o ciclo Farroupilha, 1933, em seis volumes, gentilmente cedidos pelo acadêmico Rui Cardoso Nunes, para consulta.
  12. Para impressão deixou escrito: Tábuas novas. Aspecto político da questão Social.
  13. A Evolução Brasileira. Padrões de impuro Civismo.


Em preparo ainda cogitou da segunda edição de Rio-Grandense do Sul, Revoluções Cisplatinas, 2a edição, Política Brasileira interna e externa (período 1845-1866) e Remembranças. Tempos idos e vividos, 2a e 3a séries.

No primeiro tomo de A História da Grande Revolução: O ciclo Farroupilha, encontramos 20 títulos, denominados por ele de vinte livros, a seguir enumerados:

O cenário da epopéia, A raça de ouro, A saturnia idade, Prome-theu nos grilhões. Torrentes subterrâneas, O espírito sobre as águas, Vésperas continentais. Crepitação de acendalhas, A praiaya redentora, O mito da Pampa Pátria em perigo!, llio renascida, Res gestae, O idealismo farrapo, A cruzada lendária, Primavera sagrada, A hibernação dos titãs, To be or not to be, Tróia em chamas e Crepúsculo dos deuses.

Constata-se na fabulosa obra HSTÓRIA DA GRANDE REVOLUÇÃO - O ciclo Farroupilha no Brasil, edição comemorativa do centenário, editada já em 1933, pelas oficinas gráficas da Livraria do Globo, de Porto Alegre. Mostra grande meticulosidade e erudição a transbordar conhecimentos multidisciplinares, eivados ainda de complementações pertinentes, bem elucidativas. Freqüentemente cita os europeus, especialmente os franceses, em notas de rodapé.

No início de seu tratado, em 6 volumes sobre a epopéia farroupilha, no livro 1o, faz menção ao ambiente geográfico que mostra as circunstâncias de vida do sulino. Também oferece ao leitor conhecimentos sobre o solo e o subsolo e analisa o horizonte geológico do Brasil, comparando-o com a região do Prata, a circunstanciar os eventos belicosos travados e mostra aspectos distintos do território nacional e estrangeiro.

Constitui-se em tratado de cultura no qual compara a realidade sulina do novo mundo, com as características do sul europeu. Traz, nessa obra, para deleite de todos o luxo das grandes matas tropicais e, ao citar Lindman, enfatiza:

"Mui semelhante a ambas mostra-se a flora que ensombra a maior parte dos cursos d'água, que derivam na planície, havendo sido as-saz robusta a do vale do Jaguarão, como se pode ainda apreciar em Um afluente, o Guabiju, onde jaz de pé uma soberbíssima amostra do que foi destruído, nesta bacia secundária da fronteira"

O autor tece comparações acerca do império dos portugueses nas índias Ocidentais com províncias, capitanias gerais ou subalternas e em governos militares, especialmente os do Rio Grande do Sul, sede da principal fronteira platina. E faz referência a Saint Hilaire (naturalista e historiador que esteve no RS entre 1840-1):

"O que medrou entre o choque das batalhas e a devastação das tropas regulares ou irregulares, eqüivale a um milagre das forças econômicas, impondo-se preponderantes aos mil óbices de arruina-dora estatocracia, a cujos malefícios outros se juntavam".

Enfim, há uma erudição nos informes sobre colonizadores alemães de 1823-25; quando apresenta a educação do povo português no sul e muitos outros que vieram compor o mosaico étnico sulino.

Adiante, no capítulo VII, quando tece ilações sobre o acontecimento histórico, toma-se contundente:

"Aberto o debate de 1835, na Assembléia provincial, pediu a palavra Dias de Castro, inimigo de Pedro Chaves, como membro ativo do círculo governamental e declarou estar convencido de que nã existia a conjura denunciada"...

Alfredo Varela revelou-se profundo em tudo que escreveu, pois afeito às lides diplomáticas, seu conhecimento parece não ter fim. Escreveu em prosa com tanto gosto que nos lembra Dante Alighieri quando aborda a comédia humana, em tempos de paraíso, de purgatório e de verdadeiro inferno, com as catástrofes sanguinárias sulinas.

Este instante é exíguo para ressaltar as inúmeras facetas literárias de um homem que exaltou grandiloqüentemente os episódios da epopéia farrapa. Isso indica inclusive que já havia um espírito separatista, que gerou muita polêmica intelectual, visto os farroupilhas desejarem ser menos onerados para viverem com dignidade, à semelhança do Império, do Rio de Janeiro. Dessa forma, trouxemos a mostra de uma obra imortal, que chegou a preconizar o modelo positivista para a nossa República de 1889.